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A TIRANIA DE UM SANTO NA ANTIGÜIDADE TARDIA (SÉCULO VI).

Ruy de Oliveira Andrade Filho*
UNESP

RESUMO: As fontes que nos fornecem dados sobre o conflito entre o soberano visigodo ariano Leovigildo e seu filho, o católico Hermenegildo, guardam, até hoje, diversos enigmas. Detendo-nos mais especificamente nas feições religiosas, dentre os diferentes e complexos problemas que nos sugerem esse episódio, tentaremos pontualizar certos aspectos que nos parecem exagerados; também, buscar algumas precisões mais sustentáveis e formular sugestões que possam servir para posteriores investigações e  interpretações das fontes de que dispomos para a análise dessa problemática.

PALAVRAS-CHAVE: Catolicismo; arianismo; tirania; mártir; rebelde.

O conflito entre o soberano visigodo ariano Leovigildo (586-571/2-586) e seu primogênito, Hermenegildo (573-585), é uma questão já amplamente estudada[1]. Todavia, ainda apresenta algumas facetas obscuras e contraditórias, que chegam a lhe conferir um caráter enigmático. Algumas das poucas fontes disponíveis, contemporâneas aos fatos ou um pouco posteriores a eles, podem ser abordadas e interpretadas de formas diversas, servindo de base para argumentações que, ao seu término apresentam, em diversas ocasiões, resultados diversos e, por vezes, antagônicos.

Em virtude disso, não temos aqui a intenção de revisitar essa extensa polêmica. Tampouco propor uma nova interpretação pessoal da questão, que seria apenas mais uma dentre as demais e que não caberia nesse espaço que nos foi concedido. Assim, nossa proposta é mais modesta e limitada. Detendo-nos mais especificamente nas feições religiosas, dentre os diferentes e complexos problemas que nos sugerem esse episódio, tentaremos pontualizar certos aspectos que nos parecem exagerados; também, buscar algumas precisões mais sustentáveis e formular sugestões que possam servir para posteriores investigações e  interpretações das fontes de que dispomos para a análise dessa problemática. 

No presente trabalho, estaremos nos limitando e enfatizando a visão de quatro documentos: a Crônica de João de Bíclaro (c.540-621), que resenha os anos compreendidos entre 567 e 590; a História dos Francos de Gregório de Tours (540/594), que nos fornece notícias esparsas e de um ponto de vista externo a partir da Gália merovíngia católica; a História dos Godos de Isidoro de Sevilha (c.562/636), escrita algumas décadas após os eventos e que nos apresenta os fatos dentro de uma Hispania oficialmente católica já a algum tempo; os Diálogos de Gregório Magno, pontífice entre os anos de 590 e 604, grandemente preocupado com a evangelização da Europa. Para facilitarmos nossa redação, citaremos essas fontes por meio das seguintes siglas, respectivamente: Crônica, HF, HG e Diálogos.

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Convertidos no século IV ao arianismo por Ulfilas (c.310-380) e seus missionários, os visigodos tiveram, nessa versão heretizada do cristianismo, um dos principais fatores de sua  coesão em meio às populações do Império Romano do Ocidente. Foi também sob a égide desse credo, designado por alguns como fides gothica, que estruturaram o Reino de Toulouse (419-507), destruído pelas tropas católicas do soberano franco Clóvis. Assim, com exceção da Septimania, a partir de 507 o reino que passaria a se identificar mais com seus domínios ibéricos.

Agravando essas circunstâncias, em meados do século VI, uma disputa dinástica – fenômeno endêmico do reino visigodo até a sua extinção em 711[2] – leva um dos partidos em luta a buscar socorro entre tropas bizantinas. Estas, que auxiliaram a ascensão de Atanagildo (554-567), não se retiram após o término da campanha, passando a dominar o sul da península. Desde  então, os visigodos transferem sua capital para Toledo. Seu reino, para além da Septimania (ou Narbonense) na Gália, restringia-se geograficamente ao território ibérico, espaço dividido com o reino suevo da Galiza, com a insubmissão da região basco-cantábrica e, desde 554, com a presença de enclaves bizantinos no sul.

Nesse contexto, Leovigildo ascende ao poder em 568. Desde os primeiros informes, João de Bíclaro, católico, godo e bispo da cidade de Gerona, já nos deixa entrever uma profunda admiração por sua pessoa: “(...)Leovigildo, irmão do rei Liuva [567-572], ainda vivendo seu irmão, é elevado ao reino da Espanha citerior; recebe em matrimônio a Gosvinta, viúva de Atanagildo, e faz voltar notavelmente a seus limites primitivos a província dos godos, que havia sido diminuída por diversas rebeliões” (Cônica, aprox. 569). Mais tarde, Isidoro de Sevilha, católico e hispano-romano, seguiria as palavras do bispo de Gerona: “(...) Leovigildo, tendo obtido o principado da Espanha e da Gália, decidiu ampliar seu reino com a guerra e aumentar seus bens (...). Apoderou-se de grande parte da Espanha pois, antes, a nação dos godos reduzia-se a uns limites estreitos”. Todavia, escrita após os eventos, em meio a uma Hispânia oficialmente católica, o bispo de Sevilha não deixaria de acrescentar: “Mas o erro da impiedade ofuscou nele a glória de tão grandes virtudes”(HG, 49). Assim, apesar da ressalva isidoriana, tanto nas fontes ibéricas de sua época, quanto na atual historiografia, o apontam um dos grandes reis da Espanha[3].

De fato, não eram poucos os problemas quando de sua elevação como consor regni e sucessor de seu irmão, o rei Liuva e, depois de 571-2, como soberano único até o ano de 586. O Reino de Toledo encontrava-se fragilizado externa e internamente. Externamente, punha-se em pauta, para além da insubmissão basco-cantábrica, o constante estado de conflitividade com a Gália franca e católica. O contraste com a fides gothica  agravou-se quando, em 559, Teodomiro, rei dos suevos, também se converteu ao catolicismo, chegando a realizar algumas incursões na região asturiana. No Sul, os enclaves bizantinos, também católicos, ameaçavam prosseguir seus avanços sobre os territórios peninsulares. Internamente, o maior perigo parecia proceder do estado já crônico de desagregação do próprio território visigodo. Diversas áreas, sob o domínio de grandes proprietários hispano-romanos e visigodos, mostravam-se indispostas a acatar as ordens de Toledo. Por outro lado, o caráter eletivo da monarquia e os bens a ela agregados tornavam o cargo um alvo de intensas disputas pelo poder entre a aristocracia goda, mesmo quando, posteriormente, ela já havia sido institucionalizada pelas teorias católicas e tinha tido reguladas as formas de ascensão ao poder. Paralelamente, havia ainda o inconveniente de se tratar de uma monarquia ariana em meio à imensa maioria populacional de hispano-romanos católicos. 

Diante disso, Leovigildo dá prioridade à unificação do reino de um ponto de vista estritamente territorial. Ele luta longamente contra os bizantinos, mas sem obter grandes vitórias. Contudo, consegue recuperar algumas cidades e impede que eles conseguissem novos espaços na península. Também ocupa uma parte da região basco-cantábrica em 581 e funda a cidade de Victoriacum (possivelmente a atual Vitória), procurando conter novas ofensivas naquelas regiões. Com os francos, ele tenta, sem grande sucesso, uma política matrimonial. Militarmente, consegue detê-los momentaneamente após derrotá-los de forma notável na Narbonense, em 585. Também, nesse ano, realizava a conquista do reino dos suevos, transformando-o em “província dos godos”, “reduzindo seu reino com admirável rapidez ao domínio de sua nação” (Cônica, aprox. 570 e 571; 574,2 e 581,3;  585,4; 585,2 ; HG, 49).

A par desses progressos, prosseguiam os focos de tensão internos contra os poderes regionais. Nesse aspecto, um dos mais audazes projetos régios foi o da regionalização do poder, com seus filhos Hermenegildo e Recaredo sendo associados ao trono e recebendo cada um uma área onde exerceriam autoridade. Não se tratava, como pensou Gregório de Tours, de uma autêntica divisão do reino entre seus filhos: “Leovigildo lhe doa uma de suas cidades para residir e reinar” (HF, V,38). Estaria o cronista franco buscando uma desculpa para a tentativa de independência do católico Hermenegildo? Talvez. Mas é mais provável que estivesse influenciado pelo costume franco da monarquia patrimonialista, que dividia entre os herdeiros a herança régia. De fato, a notícia que procede do bispo de Gerona apenas menciona que “O rei Leovigildo dá em matrimônio seu filho Hermenegildo à filha do rei dos francos Sisberto, e lhe concede parte do reino para governar”(Crônica, aprox. 579,2). Referindo-se à partilha anterior, ou seja, entre Liuva e Leovigildo, Isidoro de Sevilha já assinalava que “(...)Sicque regnum duos capuit, dum nulla potestas patiens consortis sit”(HG, 48). Tampouco parece que a divisão elaborada entre seus filhos, Hermenegildo e Recaredo (573/586-601),  tivesse produzido agora “uma divisão de competências territoriais tão definida como aquela que existiu entre Liuva e Leovigildo” (ORLANDIS, 1962, p.78). Dessa maneira, não se tratava de uma divisão do reino, mas uma fórmula que permitiria maior liberdade ao soberano para cuidar de outros problemas e, de forma mais ambiciosa, uma proposta de sucessão hereditária, que pudesse derrubar o conceito eletivo da monarquia até então vigente, estabelecendo-se uma tentativa dinástica (KING, 1981, pp.31-32). 

Tais são as circunstâncias em que explode a rebelião de Hermenegildo. Mal ele se estabelecera na cidade de Sevilha, provavelmente sob a influência do bispo dessa cidade, São Leandro (? – c.600), irmão mais velho de Isidoro e, provavelmente, também de sua esposa, a princesa católica Ingunda[4]. Não nos deteremos aqui sobre os motivos da rebelião ou sobre a sinceridade da conversão do revoltoso. Interessa-nos enfatizar que ele “utiliza a fé católica como arma ideológica de sua sublevação (ALONZO CAMPOS, 1987, p.152). Os perigos oriundos dessa postura são relativamente claros: estabelecido no Sul da península, onde tinha sido mais forte a romanização e onde o cristianismo católico encontrava-se mais arraigado entre os hispano-romanos, Hermenegildo ainda poderia contar com um teórico apoio dos habitantes locais e dos enclaves bizantinos católicos. Também poderia tentar buscar apoios entre francos e suevos: os primeiros, inimigos endêmicos dos visigodos; os segundos, recentemente convertidos ao catolicismo. Dessa maneira, sua rebelião mostrava-se dona de um poderoso potencial , ao menos teoricamente, contra os intentos unificadores de Leovigildo.

As expectativas do filho rebelde serão anuladas por uma astuciosa política diplomática de seu pai. Quanto aos francos, Leovigildo efetiva um pacto com o rei da Neustria, Chilperico I, sem o qual a Neustria e a Austrásia ficariam impotentes para atacar o reino de Toledo. Também combinou o casamento de Recaredo com a filha de Chilperico I. Quanto aos suevos, acabaram vítimas deste pacto anterior, quando Chilperico interceptou uma embaixada sueva do rei Miro ao franco Gontran. Em 583, Miro é derrotado quando se dirigia a Sevilha, fato que viabilizou um enfraquecimento de seu reino e a posterior tomada deste pelos visigodos de Leovigildo. Por seu turno, os bizantinos, sufocados por problemas no Oriente com os persas, não podiam dispensar tropas para auxiliar Hermenegildo. Também, já se iniciava o afastamento entre o cristianismo hispânico e o imperial (GODOY e VILELLA, 1987, pp.126-128). Além disso, os bizantinos deixaram-se subornar pelo monarca ariano para que não chegassem a realizar intervenções (HF, V,43; VI,18; V,41; V,38). Tampouco na Bética e na Lusitânia o soberano rebelde conseguiu contar com o apoio de todos os grupos católicos que, talvez, continuassem vendo nele “não ao católico, mas ao visigodo; e, logo, arrastou consigo alguns grupos isolados, já que a maioria destes se mantiveram fiéis ao seu pai”(DÍAZ Y DÍAZ, 1982,v1, p.17; ORLANDIS, 1977, pp.104-107).

Do lado hispânico, João de Bíclaro noticia que “Leovigildo reúne um exército para submeter a seu filho, o tirano”. (...) Sitia Sevilha com seu exército reunido, rodeia seu filho rebelde com um perigoso cerco. Miro, rei dos suevos, chega para auxiliar Hermenegildo e tomar Sevilha e ali conclui o seu último dia. Em seu reino, na Galiza, sucede-lhe seu filho Eborico. Enquanto isso, o rei Leovigildo conturba a dita cidade, ora com a fome, ora com a espada, ora mudando o curso do Bétis [Guadalquivir]. Leovigildo reconstrói as muralhas de Itálica, cidade antiga, o que representa um obstáculo gravíssimo para o povo sevilhano.(...)o rei Leovigildo, enquanto seu filho Hermenegildo viaja por interesses políticos, entra em Sevilha lutando, toma os castelos e cidades que seu filho havia ocupado e, não muito depois, surpreende-o na cidade de Córdoba, desterrando-o para Valência, privando-o de seu reino” (Crônica, aprox.583; 584,3). Preso e exilado por seu pai, Hermenegildo vem a morrer no ano seguinte, 585, em Tarragona.

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Posto o contexto, dele emergem numerosos enigmas. A questão que Leovigildo deveria resolver de forma mais cautelosa, era aquela das diferenças religiosas entre seus súditos.  Especialmente, devido ao fato, anteriormente apontado, de que a maioria populacional hispano-romana dos territórios sob seu comando era católica. Essa população, ao menos em teoria, predispunha-se a uma aliança com os poderes extra-peninsulares, uma vez que a fé ariana, professada pela maioria dos visigodos, constituía um traço distintivo da sua etnia em meio à população ibérica (GODOY e VILELLA, 1987, p. 123). Aliás, como sublinhou José Orlandis, “o arianismo já tinha deixado de ser um problema teológico para se converter na heresia nacional dos povos germânicos invasores” (ORLANDIS, 1956, p.4). Esse contraste era, na península, já o dissemos, singularmente forte no Sul, especialmente na Bética, região que tinha sofrido uma romanização mais intensa. As origens da fé católica hispânica ainda são obscuras. Em virtude disso, ainda é uma questão polêmica se a cristianização teria ou não se difundido, inicialmente, nas áreas mais romanizadas. No caso de uma hipótese afirmativa, a questão seria ainda mais grave, em virtude da presença ali dos enclaves bizantinos católicos.

Outra dúvida que as fontes nos legam é aquela de qual teria sido a política de Leovigildo para com os católicos antes da rebelião de Hermenegildo? Segundo Isidoro de Sevilha, o rei “(...)cheio do furor da perfídia ariana, promoveu uma perseguição contra os católicos, relegou ao desterro a muitos bispos e suprimiu as rendas e privilégios das igrejas. Também levou a muitos a pestilência ariana com ameaças, mas em sua maioria, os seduziu sem perseguição, atraindo-os com ouro e riquezas”(HG 50). Essas informações entram em contradição com as que nos fornece Gregório de Tours que, considerada sua posição de franco e católico, teria mais interesse em relatar tais eventos. Sem dúvida, a idéia de um soberano cruel e perseguidor aparece em seu texto (HF V,38).  Mas a sua História dos Francos noticia que Leovigildo colocara “recentemente em prática” uma política para acabar com o catolicismo “por meio de novos procedimentos”, que coincidiria com o início da rebelião de Hermenegildo (HF VI,18). Narra também uma longa conversação mantida com Ágila, em 580, em que esse visigodo sublinha insistentemente a política tolerante do soberano em relação aos católicos (HF V,43).

Partindo desses dois testemunhos, parece-nos mais verossímil o do clérigo franco. Inicialmente porque ele narrou mais contemporaneamente esses fatos. Em segundo lugar, pela frase “por meio de novos procedimentos”, Gregório de Tours deixa entrever uma atitude concreta de Leovigildo. De fato, no início da rebelião de Hermenegildo, o rei convocou um sínodo de bispos arianos, realizado em Toledo no ano de 580. Infelizmente, as atas (se foram feitas) não chegaram aos nossos dias. Mas sabe-se que Leovigildo determinou medidas que facilitariam o trânsito do cristianismo católico ao ariano como, por exemplo, retirando a necessidade de um novo batismo. Ainda a favor da tolerância régia, pode-se apontar a recepção em território visigodo dos clérigos católicos africanos do abade Nanctus. Chegou a lhe ceder territórios, onde foi fundado o mosteiro Servitano entre os anos de 560-570. Além disso, apesar de ariano, teria pedido a esses clérigos que lhe encomendassem a Deus em suas orações[5]. Pode-se também considerar o fato de que, antes da revolta de seu filho, o bispo Masona de Mérida, católico de origem visigoda, apesar de ser pressionado, não sofreu “perseguições” do soberano. É certo que, posteriormente, o bispo foi desterrado. Todavia, Leovigildo indicou um outro clérigo “católico”, de nome Neppopis para sucedê-lo e, antes mesmo da morte do rei ariano, Masona pode voltar e reassumir seu cargo[6]. Teríamos, pois, uma prática persecutória contínua e que tentava desenraizar o catolicismo do solo hispânico por parte de Leovigildo?

Aparentemente, antes da rebelião de Hermenegildo, com raras exceções[7], tinha existido uma tolerância entre católicos e arianos (THOMPSON,1960, p.18ss; 1971, pp.45-53). Em 527, o II Concílio de Toledo realiza-se sob os auspícios “(...)do reinado de nosso senhor Amalarico”, um soberano ariano[8], o que é confirmado na História dos Godos. Nas palavra de Isidoro de Sevilha, esta tolerância fica firmada: “(...)Depois de Amalarico, Teudis é criado rei da Espanha por um espaço de dezesseis anos. Este, embora fosse herege, concedeu paz à Igreja, até o ponto de permitir que os bispos católicos celebrassem um concílio na cidade de Toledo, deixando que dessem todo tipo de disposições que fossem necessárias para a disciplina da Igreja”(HG 41). Outros concílios, como o I de Barcelona, o de Lérida e o de Valência, realizam-se no reino visigodo ariano. Havia, pois, uma tolerância entre ambos os credos. As causas que vieram alterar esse panorama – se é que ele realmente foi mudado para outro de desavenças e perseguições - ainda permanecem desconhecidas. Aventam-se hipóteses como a da conversão dos suevos ao catolicismo e no papel que, consequentemente, naquela região, os católicos começaram a jogar; ou a da conversão de importantes personagens de etnia goda ao catolicismo, como a dos bispos João de Bíclaro e Masona de Mérida (DÍAZ Y DÍAZ, 1982, p.14); ou ainda, a de que teria havido um crescente processo de catolicização da população goda, paralelamente ao processo de interpenetração horizontal entre as camadas populacionais dos antigos invasores e a população nativa.

Assim, pois, tudo parece indicar que o ponto de inflexão da política religiosa de Leovigildo – se aceitamos que tal mudança ocorreu – encontra-se no início da revolta do consors regni. Este, mal se estabelecera em Sevilha, em 573, converteu-se ao catolicismo. No relato deste fato, Gregório Magno assinala que “visitantes vindos da Espanha nos dão conta que, recentemente, o rei Hermenegildo, filho de Leovigildo, rei dos visigodos, converteu-se da heresia ariana à fé católica, inspirado pelo grande reverendo Leandro, bispo de Sevilha (...)” (Diálogos III,31,1). É interessante percebermos que o pontífice faz referência a Hermenegildo como “rei”. Estaria ele, tal como Gregório de Tours (HF V,38) cometendo o mesmo equívoco de pensar na monarquia hispânica como a patrimonialista franca? Ou, interessado em realçar a conversão, atribuía-lhe propositadamente a dignidade régia? De fato, Hermenegildo assume todos os riscos, fazendo-se aclamar rei, cunhando moedas, consumando assim o que os cronistas hispânicos designavam “tirania”. Também buscou apoios entre francos, bizantinos e suevos (que seria anexado por Leovigildo em 585). Não deixa de ser um aspecto curioso que, tanto o pai quanto o filho rebelde, estimaram que a revolta não era total e tampouco irreversível. Tal raciocínio explicaria o fato do soberano de Toledo não ter marchado imediatamente contra Sevilha, mesmo compreendendo a potencialidade e a gravidade da rebelião. Também é pouco compreensível a razão pela qual Hermenegildo não atacou Toledo, enquanto seu pai ocupava-se de uma campanha militar ao Norte, se o seu objetivo concreto era apoderar-se do trono (DÍAZ Y DÍAZ, 1982, p.17). Não se sentiria suficientemente forte para tanto? É algo ainda a ser esclarecido.

Fora do reino de Toledo, esses fatos geravam profunda impressão nos autores católicos, criando-se ao redor de Hermenegildo uma aura de perseguido por motivos religiosos. Desta forma, ele se transformava não em um rebelde, mas num campeão do catolicismo. Em solo hispânico, os cronistas são mais comedidos. Chegam mesmo a parecerem contrários ou aparentemente indiferentes. João de Bíclaro elabora seu registro da seguinte forma: “Reinando, pois, Leovigildo em uma tranqüila paz com seus inimigos, uma querela familiar perturba a segurança. Pois, no mesmo ano, seu filho, Hermenegildo, assumindo a tirania por conspiração da rainha Gosvinta, tendo-se rebelado, encerra-se na cidade de Sevilha e faz com que as demais cidades e castelos se rebelassem contra seu pai. Este foi na Espanha, tanto para os godos como para os romanos, causa de maior ruína que uma invasão de inimigos” (Crônica, aprox. 579,3). Godo e católico, o bispo de Gerona entende a “rebelião do convertido” como um transtorno extremamente danoso para o reino, até então “em tranqüila paz”. Mais lacônico, Isidoro de Sevilha mal toca o assunto, indicando que Leovigildo “(...)venceu a seu filho Hermenegildo, que tentava usurpar-lhe o poder” (Hermenegildum deinde filium imperiis suis tyrannizantem obsessum exsuperauit) (HG 49). 

Estas controvérsias, postas pelas fontes até aqui examinadas, encontram ressonância na historiografia atual.  Alguns acreditam que, na medida em que a guerra contra seu filho tomava um caráter político-religioso, não seria estranho que Leovigildo reagisse violentamente contra o catolicismo (GONZÁLEZ, 1979, p.402; HILLGARTH, 1961, p.31). Ou ainda, que a revolta fizera Leovigildo perceber o quão seria perigoso a coexistência de duas religiões, levando-o à uma política de concessões para os católicos que apostatassem e, paralelamente, ameaçando os obstinados, “especialmente aos godos que tinham se convertido à ortodoxia, com um certo grau de perseguição” (KING, 1981, p.33). Uma tal visão poderia estar calcada na idéia de que, para Leovigildo, a conservação do poder godo dependeria de uma consolidação do espírito ariano. Mais ainda: de que a fides gothica  elaborava as bases do domínio social e político visigodo, razão pela qual seria imposta “uma política de expansão ariana” (DÍAZ Y DÍAZ, 1982, p.14).

Por outro lado, considera-se também que o soberano soube compreender seu momento histórico e, consequentemente, da impossibilidade de converter a maioria da população de seu reino ao arianismo, voltando sua política persuasiva e persecutória apenas para aqueles de estirpe visigoda, não havendo, portanto, “uma perseguição aberta e cruel” (GODOY e VILELLA 1987, p.125; SAITTA, 1979, p.53 ). Teria havido uma perseguição matizada, provavelmente apenas contra os visigodos convertidos, que acabou-se transformando numa leitura antagônica dos fatos. “De um lado, uma iluminação hagiográfica faz aparecer a seguinte tríade: Leovigildo o perseguidor, Hermenegildo o mártir, Recaredo o herói da verdadeira fé. De outro, a redução a um jogo de forças puramente político poderia instigar um outro tríptico: Leovigildo unificador e criador da realeza de Toledo, Hermenegildo rebelde infeliz, Recaredo depositário e instrumento do clericalismo hispano-romano” (FONTAINE, 1986, pp.88ss).

 Outra hipótese seria aquela de que o realismo de Leovigildo lhe fez ver que o caminho não deveria passar pela política de força contra os católicos; tampouco tentar convertê-los ao arianismo, restando-lhe “a busca de formulas de compromisso(...)”(DÍAZ Y DÍAZ,1982, pp.14-15). Dentre as idéias elencadas, as que mencionam uma solução de compromisso, junto àquela que cita apenas uma perseguição mais centrada godos influentes que haviam-se convertido ao catolicismo, parecem ser as mais confiáveis. Observa-se isso nos próprios relatos de João de Bíclaro, Isidoro de Sevilha, Gregório de Tours e Gregório Magno. O primeiro, relata a realização do concílio ariano em 580, no qual deixa claro a busca de um caminho conciliatório, concluindo que “Assim, por essa sedução, muitos dos nossos, mais por cobiça que por impulso, inclinaram-se ao dogma ariano” (Crônica, aprox. 580,2). Era uma tentativa de simplificar ao máximo o trânsito dos católicos para a fides gothica, suprimindo o requisito do novo batismo por uma simples imposição de mãos, receber a comunhão de um sacerdote da seita e recitar, “segundo a fórmula ariana a doxologia trinitária” (ORLANDIS, 1977, p.107). O segundo menciona que “Entre outros contágios de sua heresia, atreveu-se também a rebatizar aos católicos, não apenas do povo, mas também aqueles da dignidade sacerdotal, como Vicente de Saragoça, ao qual converteu de bispo em apóstata(...)” (HG, 50). O terceiro comenta as insinuantes propostas para que a católica franca Ingunda (esposa de Hermenegildo), na corte de Leovildo, teria recebido para que se rebatizasse na fé ariana, que teria sido “corajosamente recusadas” (HF, V,38). O último menciona os esforços de Leovigildo para demover seu filho da conversão ao catolicismo e das vantagens que teria com isso, tendo Hermenegildo respondido “(...)muito firmemente que não abandonaria mais a verdadeira fé(...)” (Diálogos III,31,2).

Nota-se, pois, os intentos conciliatórios e a tentativa de uma política de compromisso efetivada por Leovigildo. Também sua busca da manutenção da fé ariana como própria dos godos. Aparentemente, não havia uma perseguição sistemática aos católicos. Estes dois pontos podem ser sedimentados através de dois fatos: a arianização do reino suevo após sua conquista pelos visigodos e a acolhida, em solo ibérico, de clérigos africanos católicos, aos quais o monarca chegou a ceder terras para que se estabelecessem.  Assim, a arianização dos suevos expressaria a idéia da firme convicção ariana do soberano quanto àqueles que não eram hispano-romanos; o acolhimento dos clérigos africanos, a política tolerante do monarca para com os católicos. Dessa forma, como tem sido afirmado atualmente “as medidas anti-católicas de Leovigildo dirigiram-se tão somente contra os godos ‘pré-convertidos’ e que o monarca, fiel à antiga concepção do Arianismo germânico, como religião de raça, em nenhum momento tentou arianizar a população hispano-romana. Esta hipótese, além de contradizer a orientação geral integradora da política leovigildiana, não parece ter fundamento histórico satisfatório” (ORLANDIS, 1977, p.107; THOMPSON, 1971, pp.84ss). As atitudes do soberano de Toledo, lembram mais uma política de tolerância do tipo romano antigo, anterior aos editos de Graciano e Teodósio, onde todos os cultos são possíveis, que uma teoria política desenvolvida e amadurecida no arianismo (FONTAINE, 1986, p.105, n.23; GODOY e VILELLA, 1987, p.125). 

Parece-nos decisiva a narrativa de João de Bíclaro, na medida em que, além de pertencer à estirpe gótica, é um bispo católico e que será posteriormente desterrado. Ele nos confirma que, no terceiro ano do rei Leovigildo, “O abade do mosteiro Servitano, Donato, realizador de milagres, é famoso”; no quarto ano, “Domnino, bispo da igreja de Elena, é famoso; no quinto “Masona, bispo da igreja emeritense, é famoso em nosso dogma. No seu décimo ano de governo, “o rei Leovigildo, desaparecidos os tiranos de todas as partes e vencidos os usurpadores da Espanha, tendo conseguido o sossego com seu próprio povo, descansou(...)”, sendo famoso nesses tempos João, “presbítero da igreja emeritense(...)” (Crônica, aprox. 571; 571,4; 572,4; 573,8; 578,4,5). Parece-nos, pois, que a política religiosa de Leovigildo, anterior à rebelião de seu filho, é claramente tolerante. Iniciada a revolta, acreditamos também que ela não pode ser indiscriminadamente designada como persecutória contra os católicos. Pretendia-se que os godos fossem arianos – e dessa forma deve ser entendida a imposição confessional ao povo suevo – nunca tendo perseguido abertamente os hispano-romanos católicos. Aceita-se a idéia de que Leovigildo é o único rei ariano da Espanha do qual se sabe que perseguiu católicos em seu reino, sem derramamento de sangue e com apenas quatro casos efetivamente comprovados: Masona, o bispo de Mérida; João de Bíclaro; Frominius, bispo de Agde, que teria aconselhado a esposa franca de Hermenegildo a não se deixar tomar pelo “veneno” ariano; e um sacerdote, mencionado por Gregório de Tours, do qual não se conhece o nome, e que teria sido torturado e desterrado por Leovigildo (THOMPSON, 1971, pp.94; 97-98; 81). Não deixa de ser significativo, por outro lado, que não haja indícios de que Leandro, bispo de Sevilha tivesse sido perseguido; mesmo tendo sido um dos principais agentes da conversão de Hermenegildo. Seria, hipoteticamente, apenas por que não pertencia à estirpe gótica? Assim sendo, teria um potencial maior para desencadear  uma reação anti-monárquica que aquela produzida por seu filho entre a população hispano-romana?

Os enigmas prosseguem. Qual a razão que leva Leovigildo a não executar seu filho mas desterrá-lo? Estaria ele temeroso em criar um mártir do catolicismo? Não são conhecidas as circunstâncias da morte do consors regni. Seu pai estaria envolvido? Gregório de Tours não questiona esse problema: para ele, Leovigildo estaria diretamente envolvido nela (HF VIII,28; IX,16), o que poderia ser apenas mais uma “propaganda” contra Leovigildo (HILLGARTH, 1961, 28ss; DÍAZ Y DÍAZ, 1982, p.18 e n.32) . Da mesma forma, Gregório Magno conta que o pai tentara enganar o filho aprisionado, fazendo-o receber a comunhão de um bispo ariano, o que foi percebido por Hermenegildo e teria gerado sua condenação à morte (Diálogos III,31, 3-4).  Apesar de meio fantasiosa, a versão do pontífice não pode ser totalmente descartada. Seria difícil acreditar que, sem as ordens de Leovigildo, o assassino de seu filho, Sisberto, pudesse continuar vivo e livre (THOMPSON, 1971, p.89). Teria sido martirizado (GARVIN, nota 3, pp.486ss)? O bispo de Gerona apenas assinala a morte do rebelde: “Hermenegildo é morto em Tarragona por Sisberto” (Crônica, aprox.585,3). Também, de forma lacônica, relata: “Sisberto, o que matou Hermenegildo, falece de forma muito torpe” (Crônica, aprox.587,4). Nesta nota, João de Bíclaro deixa entrever um pequeno lampejo de apoio ao filho revoltoso; mas nada mais diz sobre ele.

Bispo católico, godo, fiel à sua religião, João de Bíclaro mostra-se, pois, mais como um defensor da legitimidade institucional encarnada pelo monarca, mesmo que ariano. Em outro breve lampejo, assinala a morte de Leovigildo e o primeiro ano do “rei Recaredo, felizmente” (Crônica, aprox.586,2; 587). Para ele, tanto quanto para Isidoro de Sevilha, Hermenegildo fora um “tirano” (Crônica, aprox. 579,3; 582,3; HG 49). Trata-se, também de um ponto polêmico. Argumenta-se que alguns historiadores atuais deixaram-se impressionar muito pela terminologia, atribuindo-lhe um caráter excessivamente pejorativo que, para outros, “não se ajustariam bem à realidade dos fatos” (ORLANDIS, 1962, pp.6-7; 1962, pp.13-42). Também que, esse conceito, nas Etimologias de Isidoro de Sevilha, não tem outro significado que o de “poder de fato, ilegítimo em sua origem, que se rebela diante do poder legalmente estabelecido” (ORLANDIS, 1962, p.8-9). Mas, recorrendo-se ao texto das Etimologias, encontramos as seguintes definições: “Em grego, tirano é o mesmo que ‘rei’ em latim, já que para os antigos, entre ‘rei’ e ‘tirano’ não existia diferença alguma. (...) E é que os reis poderosos eram chamados ‘tiranos’, de tiro, que significa ‘poderosos’. (...) Mais tarde, iniciou-se o costume de denominar ‘tiranos’ aos reis depravados e iníquos, que exerciam sobre o povo uma ânsia desmedida de domínio e uma autoridade sumamente cruel” (Etimologias, IX, 19-20). Resta, pois, a questão: qual das acepções Isidoro e João de Bíclaro estariam utilizando em seus textos?

Assassinado no ano seguinte ao da sua prisão, em 585, de certa forma Hermenegildo acabou atingindo os temores que, suspeitamos, rondavam Leovigildo: a figura do mártir cristão. Mas isso apenas no plano externo. Vimos a brevidade e os termos como os cronistas hispânicos tratam o rebelde. Todavia, Gregório Magno não deixa de fazê-lo, sendo que tinha sido “vítima dos arianos heréticos” e, consequentemente, um mártir da fé, “venerado por todos os fiéis”, enquanto seu pai “perfidus et parricida” foi tomado por um sentimento de penitência (Diálogos III,31,4-6). Gregório de Tours, por seu turno, também não deixa de trabalhar essa idéia, quando menciona que havia passado pela cabeça de Hermenegildo a idéia de matar seu pai, o que ele não teria realizado, pois “acarretaria sobre ele o castigo divino, por elaborar tais projetos contra seu próprio pai, por mais herege que ele fosse”(HF VI,43). Dessa forma, os episódios finais da vida do consors regni rebelde, foram e continuam sendo um dos pontos mais obscuros e controvertidos da história do reino de Toledo. O elogio a Hermenegildo no  opúsculo De vana saeculi sapientia de Valério de Bierzo (veja-se nota 3), de fins do século VII, é, por vezes, apontado como um “testemunho inquestionável a fama de santidade que o mártir Hermenegildo havia alcançado cem anos depois de sua morte, ao menos em certos ambientes da Espanha visigótica” (ORLANDIS, 1977, p.112). Parece-nos no mínimo arriscada essa afirmativa. Noutra fonte do século VII, a Vidas dos Santos Padres de Mérida[9], há diversas referências ao governo de Leovigildo, mas o nome de Hermenegildo é simplesmente omitido; essa fonte chega a transcrever o trecho citado acima de Gregório Magno substituindo “irmão martir” por “Cristo o Senhor”. Dessa forma, preferimos concordar com a opinião que teria havido na Espanha “uma conspiração do silêncio em tudo o que diz respeito a Hermenegildo” (THOMPSON, 1971, p.93).

Sintomaticamente, no III Concílio de Toledo, de 589, que comemora a conversão oficial do reino visigodo ao catolicismo, através de Recaredo, que contou com a participação de Leandro de Sevilha, nada é dito sobre seu irmão, Hermenegildo, quando todas as circunstâncias pareciam sugerir uma recordação de sua pessoa. Gregório Magno registra o evento dizendo que “Recaredo, seguindo o exemplo não de seu pai ímpio, mas aquele de seu irmão mártir, abjurou da pérfida heresia ariana” (Diálogos III, 31,7). Gregório de Tours compartilha a idéia de Gregório Magno quando noticia a morte de um Leovigildo consciente de seu erro, penitenciado e convertido à fé católica, assumindo o trono seu filho, Recaredo (HF VIII,46; Diálogos III,31,6), o que é tido pela historiografia como uma versão lendária ou, mais um enigma: a conversão do soberano visigodo às vésperas de sua morte. “A verdade é que um perseguidor convertido seria mais que um triunfo glorioso para a Igreja”(DÍAZ Y DÍAZ, 1982, p.20, n.39). O silêncio se estabelece ao redor de Hermenegildo, como se a sua derrota tivesse sido um desígnio divino pois, como assevera Santo Agostinho e, depois dele Gregório Magno e o próprio Isidoro de Sevilha, o mau governante é um “castigo divino” não sendo lícito levantar-se contra ele. Mais ainda, quando era o próprio filho que se erguia em revolta contra seu pai, o que pode ser visto como uma tirania imperdoável.

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Muitas outras dúvidas ainda poderiam ser elencadas, mas já é tempo de concluirmos. Dois anos antes do  III Concílio de Toledo, o bispo de Gerona assinalava: “Recaredo, no décimo mês do primeiro ano de seu reinado, fez-se católico com a ajuda de Deus; mantém uma prudente entrevista com os sacerdotes da seita ariana, convertendo-os à fé católica mais por convencimento que por imposição, e reintegra na unidade e na paz da Igreja cristã a todo povo dos godos e dos suevos. A seita ariana, com a graça divina, aceita o dogma cristão”. Seria o caso de considerarmos a hipótese da conversão tardia de seu pai, apontada pela História dos Francos  e nos Diálogos? Teria realmente Leovigildo encomendado a Leandro de Sevilha a conversão de Recaredo? Por seu turno, Isidoro de Sevilha escreve: “(...)no ano terceiro do Império de Maurício, morto Leovigildo, foi coroado rei seu filho Recaredo. Estava dotado de grande respeito à religião e era muito diferente de seu pai em costumes, pois o pai era irreligioso e muito inclinado à guerra, ele era piedoso pela fé e preclaro pela paz; aquele dilatava o império de sua nação com o emprego das armas; este iria engrandecê-lo ainda mais pelo troféu da fé. Desde o começo mesmo de seu reinado, Recaredo se converteu, com efeito, à fé católica e levou o culto da verdadeira fé a toda a nação gótica, apagando assim a mancha de um erro enraizado”(HG 52). É sentida a ausência nos dois cronistas do nome de Hermenegildo. Também em suas notas sobre o concílio de 589 e nas atas do mesmo.

Talvez a resposta esteja no fato de que, em sua política religiosa, Recaredo levava o signo da pacificação e da concórdia: “mais por convencimento que por imposição”; “reintegrando na unidade e na paz da Igreja católica” como assinalou João de Bíclaro; “piedoso pela fé e preclaro pela paz”, engrandecendo seu reino “pelo troféu da fé”, nas palavras de Isidoro. Nesse momento, o nome de seu irmão revolveria, inevitavelmente, inoportunas recordações do passado recente. Assim, esse silêncio das fontes talvez possa ser interpretado por razões de prudência política, sem intenções de censura ou realização de um juízo desfavorável de Hermenegildo. Ele não teria sido lembrado propositadamente, porque era um símbolo de divisão, de discórdia, de tirania. Também porque lutaram contra eleo grupo social dominante no reino, agora convertido à fé católica. Nota-se a cautela do bispo de Gerona quanto à morte de seu pretenso executor, Sisberto, que teria “morrido de forma torpe” (Crônica, aprox. 587,4), insinuando ai um certo “providencialismo” cristão. Assim, dentre outras questões, o papel de Hermenegildo como consors regni; o sentido e o valor que encobrem os termos “tirania” e “rebelião”, além dos juízos que a respeito disso tiveram seus contemporâneos, ainda merecem diversas considerações e pesquisas.

Não poderíamos pensar que a “conspiração do silêncio” ocorre porque sua morte encerra muitos outros elementos que apenas aqueles de caráter religioso? Também não poderia estar relacionado ao fato de que, seu possível “martírio”, tivesse um caráter de voluntariedade, aceito apenas com grandes reservas pela Igreja hispânica daquele tempo (DÍAZ Y DÍAZ, 1982, p.19). Lembremos que um cânone do concílio de Elvira, de inínios do século IV, pondera que “se alguém destruir os ídolos e for assassinado no mesmo local, porque não está escrito no evangelho, nem achamos que se fizesse assim nos tempos apostólicos, temos por bem que eles não sejam contados entre os mártires”[10]. Residiria aqui a razão pela qual nunca fosse considerado um mártir ou, pelo menos, um herói do catolicismo na Espanha medieval? Como entender a ausência de um severo castigo ao principal mentor da revolta, o bispo Leandro de Sevilha? Estaria Leovigildo temeroso quanto aos riscos políticos que uma punição ao bispo sevilhano poderia ter? Em que medida podemos considerar como fidedignas as fontes extra-peninsulares? Quais as razões do escasso apoio obtido por Hermenegildo entre os hispano-romanos da Bética e de outras partes do reino? Como explicar as razões do sucesso de Recaredo em sua política de conversão, onde falhara Hermenegildo? Apenas por seus métodos de consenso? Seria em razão de seu irmão ser considerado um “tirano”? Ou porque Hermenegildo erguera-se contra um poder em fase de consolidação, contra um poder estabelecido? Isso explicaria as menções lacônicas do cronista de Gerona sobre o filho rebelde? Que motivos levaram Isidoro de Sevilha, autor que relata os fatos décadas depois de sucedidos, a integrar a mencionada “conspiração do silêncio”? Quais as razões da memória de Hermenegildo permanecer obscurecida, mesmo após o ocaso do reino de Toledo em 711, com a invasão muçulmana, numa época tão sequiosa por santos, por milagres e mártires? Significativamente, ele, o “tirano e rebelde” da época visigoda somente passará a ser venerado como mártir na época de Felipe II, dez séculos após os fatos. A Idade Média não o santificou. O enigma permanece.

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ABSTRACT: The sources that supply us data on the conflict among the sovereign Arian visigoth Leovigildo and hids son, Catholic Hermenegildo keeps, until today, several enigmas. More specifically stopping in the in the religious features, among the different and complex problems that suggest us that episode, we will try punctuate certain aspects that seem us exaggerated; also, to look for some more maintainable precisions and to formulate suggestions that can be good for investigations and interpretations of the sources that we dispose for the analysis of that problematic one.

KEYWORDS: Catholicism; arianism; tyranny; martyr; rebellious.

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* Doutor em História Medieval pela USP. Professor Assistente Doutor da UNESP – ASSIS. 

[1] Uma boa relação de obras sobre esse tema pode ser encontrada em TORRES LÓPEZ, Manuel “Historia política del Reino hispanovisigodo arriano” in MENÉNDEZ PIDAL, Ramón (Dir.) Historia de España III. España Visigoda (414-711 de J.C.).3a.Ed. Madrid: Espasa-Calpe, 1976, p.107, n.15; também na obra de FERREIRO,A. The Visigoths in Gaul and Spain (A.D.418-711). A Bibliography. Leiden – New York – Kobenhavn – Köln: E.J.Brill, 1988; de forma mais recente em ORLANDIS, José “El cristianismo y la Iglesia” in JOVER ZAMORA, J.M. Historia de España Menéndez Pidal. España Visigoda. Tomo III. 2v. Madrid: Espasa-Calpe, 1991, v.1, p.450, n.58. 

[2] Avidez pelo poder que seria designada como morbus gothorum por FREDEGARIO Chronicum, LXXXII in MIGNE, P. (Ed.) Patrologia Cursus Completus – Series Latina.221v. Paris: Garnier, 1844-1864, v.71, 1849, cols. 657-8.

[3] Já dentro de um âmbito católico oficial, apesar de reconhecer os valores de Leovigildo, Isidoro de Sevilha não deixará de criticá-lo como um cruel perseguidor na sua HG 49-51 e no seu De Viris Illustribus, XXXI et passim (Ed. de  C. Codoñer Merino. Salamanca: CSIC – Instituto “Antonio de Nebrija” – Colegio Trilingüe de la Universidad, 1964). Bem posterior ao governo de Leovigildo, é interessante sublinharmos que a hagiografia anônima (às vezes atribuída ao diácono Paulo) Vitas[sic.] Sanctorum Patrum Emeritensium, que dedica boa parte à vida do bispo Masona de Mérida, de origem goda e que chegou a ser exilado por Leovigildo, traça desse rei uma imagem extremamente negativa (Ed. de J. N. Garvin. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 1946). Por outro lado e de forma quase isolada, encontramos o opusculo de VALERIO DE BIERZO De vana saeculi sapientia (Ed. de R. Fernández Pousa   San Valerio (Nuño Valerio). Obras. Edición crítica. Madrid: CSIC, 1942) que é um dos raríssimos textos hispânicos da época visigoda que trata Hermenegildo como um mártir do catolicismo.

[4] Não adentraremos nos móveis ideológicos de sua rebelião e, tampouco, especularemos sobre a sinceridade ou não de sua conversão ao catolicismo. Para essas e outras  questões que não nos é possível tratar aqui,  veja-se nosso sumário bibliográfico e as obras citadas pela bibliografia apontada em nossa nota 1.

[5] Vitas Sanctorum Patrum Emeritensium, III,2 ss. (Ed. citada na nota 3); esta fonte também indica que, nessa época, Masona, bispo de Mérida, pode fundar e dotar alguns mosteiros: Vitas Sanctorum Patrum Emeritensium, V,3,3.

[6] Vitas Sanctorum Patrum Emeritensium, XI,27; XIV,34 (Ed. citada na nota 3).

[7] São, pois, fatos isolados, como as ações de Teodorico II contra católicos entre os suevos e da campanha de segregacionismo empreendida por Eurico. Normalmente, as relações eram de tolerância, como demonstram as atas do II Concílio de Toledo, de 527, em que se reverencia “o senhor e glorioso rei Amalarico(...)”. 

[8] Concilios; 2Toledo, p.42.

[9] Vitas Sanctorum Patrum Emeritensium, V,9,4 (citado na nota 3) que acompanha Diálogos III,31.

[10] Concilios; Elvira, cânone 60.