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DOMINADORES E DOMINADOS NA PALESTINA DO I SÉCULO

 

 

Ivan Esperança ROCHA[1]

 

Há muito tempo, nós tínhamos decidido, ó meus valorosos, que não reconheceríamos como nossos senhores nem os romanos nem ninguém fora Deus, porque só ele é o verdadeiro e justo senhor dos homens” (Eleazar, líder dos judeus durante luta contra os romanos - GJ VII,323) 1740).

 

INTRODUÇÃO

 

 

Em seu número de outubro de 2001, a revista Superinteressante, em um dossiê sobre os conflitos no Afeganistão, aponta os sicários judeus como o primeiro grupo terrorista organizado da história[2].

 

Uma análise mais acurada dos fatos talvez nos apresente uma nova versão sobre este grupo e seu papel na sociedade judaica do primeiro século.  Neste espaço limitado que temos à nossa disposição destacaremos alguns elementos que possam contribuir para isso.

                                  

O Oriente Médio, e particularmente a Palestina, exerceu uma permanente atração sobre diferentes dominadores ao longo da história. Ora por motivos econômicos, ora políticos ou apenas estratégicos, assírios (733 a.C.), babilônios (588 a.C.), persas (539 a.C.), ptolomeus (323 a.C.) e selêucidas (198 a.C.) se assenhorearam da Palestina,  depredando-a e deixando  nela suas marcas.

 

Mas nada se igualou às conseqüências da dominação romana e às dimensões da resistência  desencadeada  contra ela e que foram documentadas por Flávio Josefo[3] (37-100 d.C.) em sua obra A Guerra Judaica.

 

 

 

 

CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS DE A GUERRA JUDAICA

 

Os escritos de FJ e os textos do Novo Testamento constituem as principais fontes sobre a história judaica do primeiro século.

 

Em A Guerra Judaica, FJ escreve a respeito do poder dos romanos sobre os judeus com uma forma semelhante àquela que Políbio, dois séculos antes, utiliza para justificar a hegemonia dos romanos sobre os gregos. Trata-se de uma obra escrita por uma testemunha ocular dos fatos narrados (1,1-23), como fora Tucídides, o autor de A Guerra do Peloponeso[4].

           

A abrangência do objeto histórico de suas obras – escreve também Antiguidades Judaicas, Autobiografia e Contra Apion -- faz dele uma fonte utilizada por diversos segmentos historiográficos, o que justifica a ampla produção editorial sobre ele, em sua maioria reunida por Schreckenberg[5]. O interesse por FJ, principalmente por A Guerra Judaica, sua primeira e mais famosa obra[6], foi despertado, desde cedo, sobretudo pela Igreja por tratar-se praticamente do único documento contemporâneo ao início do cristianismo[7]. Na literatura cristã, está presente em Orígenes (184-254 d.C.), Eusébio de Cesarea (265-340 d.C.) e Jerônimo (342-420 d.C.)[8]. Durante a Idade Média, FJ chegou a ser o autor antigo mais lido além da Bíblia[9]. São inúmeras as edições completas ou parciais de suas obras: Arlenius (1544), Gelenius (1548), Bernard (1700), Reland (1714), Hudson (1720), Haverkamp (1726), Richter (1826-27), Cardwell (1837), Dindorf (1845-6), Holwerda (1847), Cobet (1876), Niese (1887-1895), Naber (1888-1896), Herweden  (1893), Schlatter (1927-1928),  Tackeray, Marcus, Wikgren, Feldman (1926-1965),  Michel-Bauernfeind (1959-1969)[10].

 

Dentre as traduções e comentários atualmente sendo elaborados sobre a obra de FJ destaca-se o International English Josephus Project que tem por objetivo realizar uma tradução moderna de suas obras, baseado-se na edição crítica de Niese e levando em consideração novas contribuições históricas, arqueológicas e filológicas sobre a obra de FJ[11]. Os pesquisadores responsáveis pelo texto de A guerra judaica são: Joseph Sievers (Pontifício Instituto Bíblico de Roma), Steve Mason (Universidade de York, Toronto), Jonathan Price (Universidade de Tel Aviv), James L. McLaren, Universidade Católica da Austrália, Ascot)[12].

 

O interesse pela obra de FJ continua crescendo se levarmos em consideração que existem mais de 1500 páginas na Internet sobre ela[13], com destaque para os grupos de discussão, e para páginas abrangentes, que apresentam, além da tradução de toda a obra de FJ, links para outras páginas, bibliografia online, cronologias, informações sobre conferências, congressos[14]. O Institutum Judaicum Delitzschianum da Universidade de Münster mantém uma página com uma bibliografia sobre FJ em permanente atualização[15]. O Projeto Perseus, da Tufts University, disponibiliza em sua página[16] o texto de Niese em caracteres gregos e em sua transliteração no formato de hipertexto, ligando todas as palavras com o dicionário de Liddell-Scott-Jones, Greek-English Lexicon (Oxford University Press)[17]

 

Estas informações técnicas têm o objetivo de apresentar a importância da obra de FJ para a historiografia. No entanto, muitos dos autores que se debruçam sobre sua obra fazem restrições a muitas das informações contidas na obra.

 

Se, de um lado, muitos dados podem ser confirmados pela arqueologia[18], de outro, muitas informações são de segunda mão e não foram confirmadas pelo autor. BROSHI[19] aponta para imprecisões da descrição que FJ faz da fortaleza de Massada – principal palco do confronto entre judeus e romanos – comparando-a com dados provindos da arqueologia sobre o local. Se muitos erros ou exageros presentes em A Guerra Judaica podem ser atribuídos aos copistas, muitos devem ser atribuídos ao próprio autor. Dentre os exageros deve-se destacar os números dos habitantes da Palestina a que ele se refere[20]. Apenas na Galiléia, ele indica a presença de 204 aldeias, tendo a menor delas 15.000 habitantes, o que não condiz com a realidade[21], mesmo levando em consideração que a Galiléia fosse – e ainda é – a região mais fértil da Palestina, o que justificaria uma concentração de população. FJ diz, por exemplo, que a população de Jerusalém podia chegar, em alguns momentos festivos, a um total de 2 milhões e setecentas pessoas (7,422-426), mas, no máximo, este número podia atingir, segundo BYATT[22],  1 milhão de pessoas. Com relação à população de toda a Palestina do período, uma média dos números indicados pelos especialistas (Condor, Mazar, Avi-Yonah, Daniel-Rops, MacCown) é de 3 milhões de habitantes[23].

 

A soma das cifras relativas aos judeus mortos durante a revolta indicadas por FJ chega a 1.100.000. Levando em consideração que a população da Palestina do período é avaliada em torno de 2.500.000 de habitantes[24], praticamente metade dessa população, segundo ele,  teria sido morta durante a guerra judaica, incluindo-se os períodos imediatamente anterior e posterior a ela. No entanto, os pesquisadores levantam muitas dúvidas a respeito dos números apresentados por FJ.

 

O episódio do Monte Massada, o último reduto judaico na guerra contra os romanos, onde os sicários liderados por Eleazar ben Jair praticam um suicídio coletivo envolvendo 960 judeus, tem sido muito debatido pelos pesquisadores a partir das evidências arqueológicas. Dentre outras evidências, a forma em que foram encontrados os cadáveres em Massada parece contradizer o suicídio coletivo relatado por FJ: Yadin encontra ali 27 esqueletos dos quais 25 numa gruta. Um desses esqueletos estava numa posição característica de quem foi enterrado de maneira tradicional[25]. Dentre os materiais encontrados em Massada incluem-se linho, pelo de cabra, lã e algodão, o que coloca mais uma dúvida sobre a narração de FJ que diz que todos os pertences dos judeus de Massada foram queimados[26]. Uma suspeita sobre esta narração é levantada já no século X d.C.: Joseph Ben Gorion (Josippon) substitui o relato do suicídio coletivo por aquele da morte em combate: segundo ele, os judeus de Massada morreram combatendo[27]. É necessário levar em consideração também que, em sua narrativa, FJ apresenta uma característica do modelo historiográfico helenístico que é mostrar a grandeza de uma vitória acentuando as virtudes dos opositores. Ao indicar o suicídio do inimigo diante da derrota acentua a grandeza da vitória sobre tais “honráveis” opositores[28].

 

Massada não é o único exemplo de assedio seguido de suicídio na Antigüidade. Cohen elenca 16 casos desse tipo de suicídio na Antiguidade e muitos dos detalhes da narração de FJ estão presentes nesses casos, o que constitui um elemento questionador da historicidade do episódio[29]. Alguns dados da narrativa são suspeitos, como a afirmação de que, apesar das labaredas e das possíveis lamentações dos envolvidos no suicídio, os romanos não teriam suspeitado de nada (7,9). A narração é dramática, mas de pouca credibilidade. Dado que o suicídio só foi descoberto após a chegada dos romanos e que os que sobreviveram estavam escondidos, os detalhes descritos por FJ não têm suporte histórico, e portanto a descrição é uma combinação de ficção e de conjecturas[30]. O que deve ter ocorrido foi o suicídio de um certo número de sicários e este fato teria sido ampliado por FJ; alguns teriam lutado contra os romanos e outros tentado fugir, o que explicaria os 25 esqueletos encontrados numa caverna.

 

Assim, o relato de FJ teria sido moldado sob a influência da tradição historiográfica greco-romana a respeito de suicídios coletivos e onde eram comuns os exageros na narração[31], no entanto, tais exageros e outros dados provindos da arqueologia não são considerados prova de que o relato de FJ sobre Massada seja uma mera invenção literária. Newell defende que a presença de nomes individuais num relato de suicídio demonstra a probabilidade de historicidade, sobretudo no caso de Eleazar, ben Yair, cujo nome foi inscrito numa peça de cerâmica encontrada no local. O que FJ faz, segundo ele, é ampliar a narrativa incluindo dois longos discursos que são utilizados como conclusão de seu trabalho[32].

 

Não obstante a proximidade de FJ com os fatos que relata, é difícil querer analisar sua obra com a preocupação ranqueana de compreender “o que realmente aconteceu”.

 

 

O PERFIL DE FLÁVIO JOSEJO

 

 

FJ representa a corrente moderada dos judeus, aliada dos romanos, e descreve os inimigos de Roma como seus inimigos. A obra parece, às vezes, mais uma descrição de seus conflitos pessoais que aquele dos judeus com os romanos. Neste sentido, devemos destacar o ódio destilado por ele contra seu arqui-inimigo, João de Giscala[33], o personagem por ele mais citado (15 vezes), depois de Vespasiano (22 vezes) e Tito (25 vezes), apesar de João não ser considerado um grande inimigo pelos romanos[34].

 

FJ começa seu relato como general judeu em luta contra os romanos mas pouco a pouco vai mudando de opinião a respeito dos conflitos e termina envidando todos os esforços para demonstrar a inutilidade de se gastar as forças internas tanto em guerras civis como na luta contra os romanos. Quando fala de guerra civil refere-se ao confronto entre os zelotas e sicários e todos os grupos filo-romanos (4,378), sobretudo, os das classes elevadas (2,168), que procuravam defender seu patrimônio contra seus compatriotas "revolucionários", talvez um dos principais motivos da ira de FJ, como membro da aristocracia judaica. A leitura que FJ faz dos conflitos chega a justificar a afirmação de quem indica  “os sicários judeus como o primeiro grupo terrorista organizado da história”[35].

 

Esta mudança de posição justifica-se por um conjunto de fatos que aproxima Josefo dos romanos. Arriscando-se como profeta, ele anuncia que Vespasiano seria o próximo imperador (3,401)[36],  em substituição a Vitélio (69 d.C.) – talvez se servindo de uma análise do óbvio, ou seja Vespasiano era, no momento,  o mais bem quotado para assumir o império. Profecia ou não, este fato trouxe-lhe uma série de benefícios e a partir daí sua avaliação dos conflitos muda de tom. Os generais romanos envolvidos na contenda passam a ser apresentados mais como salvadores que como opressores dos judeus[37].

 

A partir daí sua análise dos grupos revoltosos precisa ser meticulosamente reavaliada. Os revoltosos se transformam em simples lestes,  ou seja, em bandidos/terroristas.

 

No entanto, se existem, de um lado, vários elementos internos que despertam estranhezas num leitor atento e perplexidade no pesquisador — alguns chegam até mesmo a rejeitar o trabalho historiográfico de FJ[38] — , de outro, não se pode deixar de filtrar nesta obra informações importantes para o conhecimento de um período com escassa documentação. É preciso, no entanto, realizar uma proeza arqueológica, escavando informações encobertas por uma crosta épica onde tudo parece estar em função de batalhas mas não dos soldados que delas participam, nem de suas mulheres, de seus filhos ou de seus lares e de seus campos e nem da descrição da realidade nua e crua que envolve a maioria da população da Palestina.

 

Muitas das fontes que fornecem informações históricas sobre o judaísmo do período em questão se perderam e são apenas citadas por FJ ou outros autores: Memórias do Rei Herodes ( Ant., 15,174), Ptolomeus (Ammonius, De adfinium vocabulorum differentia), Nicolau de Damasco[39](2,33-36) et passim), Comentários sobre Vespasiano[40] (Aut. 65,342.358; Contra Apion 1,56), Antonius Julianus[41], Justus de Tiberíades[42] (Aut. 9,36-42 et passim). Dentre as fontes gregas disponíveis se destacam: Estrabão de Amaseia[43], Plutarco[44], Apiano[45], Cassius Dio[46], e dentre as latinas: Tácito[47], Suetônio[48]. Além dessa fontes, Schürer, destaca ainda as inscrições judaicas e não judaicas, palestinas e não palestinas, produzidas em grego, latim, hebraico e aramaico e as informações indiretas provenientes da literatura rabínica (Mishnah, Tosefta, Talmud, Midrash e Targum)[49], mas Josefo continua sendo a principal delas com relação à Palestina.

 

A SOCIEDADE PALESTINA ENVOLVIDA NA GUERRA 

 

As proporções assumidas pela guerra entre judeus e romanos superam todos os embates anteriores, tanto em volume de indivíduos envolvidos quando nos detalhes presentes no único documento sobre o episódio, ou seja, a Guerra Judaica de FJ.

 

A dominação romana da Palestina deu-se por volta de 62 a.C., em seguida à anexação da Síria por Pompeu.[50]. Seguindo a prática de utilizar lideranças locais para governar os territórios dominados, os romanos nomeiam Herodes, um idumeu,  rei da Judéia, que ficaria no trono entre 37 a.C. a 4 d.C.[51] O período de seu governo é fortemente criticado. Alguns o acusam de torturar membros da comunidade judaica[52]; o próprio FJ diz que a Palestina, antes próspera, foi transformada por Herodes num país de miseráveis e de injustiças (GJ 2,86). Devemos antecipar que é esta deteriorização da situação social dos judeus da Palestina que se constituirá no principal motor da guerra civil e da revolta contra os romanos, mesmo que FJ quisesse dar-lhe uma outra interpretação.

 

As práticas de Herodes corroem as bases da pretensa pax romana promulgada por Augusto (31 a.C-14 d.C.) com validade para todos os territórios conquistados, inclusive a Palestina.

 

Em 6/7 d.C., o polêmico censo de Quirino[53] – verificação de quem é quem e de quem tem o que na Palestina -- resultou na imposição de uma taxa per capita sobre a população da Judéia,  o que gerou uma revolta sob a liderança de Judas, cujos seguidores serão conhecidos como zelotas e que juntamente com os sicários seriam os principais protagonistas no confronto narrado por FJ. Entre 26 e 36 d.C., Pilatos, governador da Judéia, contrariando valores religiosos dos judeus, quer introduzir uma imagem do imperador em Jerusalém (2,169), e, em seguida, apropria-se dos tesouros do templo de Jerusalém para a construção de um aqueduto nesta cidade[54]. O governo do imperador Calígula (37-41 d.C.) foi marcado pela tentativa de abolir o culto judaico em Jerusalém e instalar em seu lugar sua estátua[55].

 

O que se verifica, portanto,  é uma mistura de elementos econômicos e simbólicos na confecção da rejeição dos romanos.

 

Em meados do I séc. d.C., calcula-se que o Império Romano tenha entre 50 e 80 milhões os habitantes,  do dos quais cerca de 90% vivia no campo. No entanto, a terra,  a principal fonte de sobrevivência para a população do império, inclusive para a da Palestina, é muito mal distribuída. Na Península Itálica e nas Províncias, a maioria das terras produtivas está nas mãos de uma minoria. No Egito, encontramos o caso de 42 agricultores partilhando de uma mesma casa. Sêneca indica que os pobres constituem a maior parte da população e que a situação tinha poucas chances de ser mudada (Sêneca, Helv. 12,1)[56].

 

As mudanças de condições sociais podiam ocorrer em situações específicas, quando um indivíduo possuía talentos comerciais ou financeiros ou por serviços políticos e militares prestados a um imperador[57], como é o caso do próprio FJ, ligado de uma maneira particular a Vespasiano. Casos como o do liberto Trimalchião narrado no Satyricon de Petrônio, se histórico, constituem exceção à regra.

 

Deve-se destacar que as camadas inferiores nas cidades diferenciavam-se das camadas inferiores rurais. Nas cidades essas camadas são mais uniformes que as rurais e detinham uma posição mais favorável[58].

 

Na Judéia e no Egito a situação da população rural "livre" era mais desfavorável que a dos escravos nas propriedades de senhores romanos. Filo (De spec. leg. 3,159) descreve um quadro sombrio da camada rural, destacando os  pesados impostos a que era obrigada. Em casos de fuga de camponeses para não pagarem impostos, sua família ou vizinhos eram brutalmente maltratados e até torturados à morte.

 

A maior parte dos que se opunham a Roma pertenciam sempre à classe rural. Indicando os motivos que levaram às revoltas camponesas na Palestina entre 66 e 70, Alföldy, destaca a opressão extremamente severa da população judaica da Palestina por parte de romanos e da própria aristocracia local, que incluía os sumos-sacerdotes.[59].

 

 

Em fins da era de Augusto (aprox. 14 d.C.) a verdadeira camada dominante romana era constituída apenas por 160 pessoas[60]. Um exército permanente de 350.000 a 400.000 homens garantiam  o status quo[61], tornando ineficaz qualquer revolta contra o domínio romano (GJ 2,245ss) e das lideranças locais suas aliadas.

 

 

A obra de FJ constitui, indiretamente, a descrição desse quadro sócio-político e dos sentimentos e movimentos que opuseram romanos e judeus, sobretudo, entre os anos 66 e 70. Apesar de conhecer muita bem esta realidade, a posição social de FJ, membro de uma família sacerdotal proprietária de terras,  atingida em cheio pela ação dos rebeldes, o levará a escamotear as verdadeiras causas da revolta judaica[62].

 

 

A INTERPRETAÇÃO DE A GUERRA JUDAICA

 

 

A interpretação dos motivos que causaram a guerra judaica contra os romanos tem causado polêmicas entre os estudiosos. A interpretação teológica,  como a de Helgo Lindner[63], considera a guerra judaica como um castigo de Deus pelos pecados dos judeus. Josefo, de fato,  chega a considerar a guerra dos judeus uma luta não apenas contra os romanos mas também contra Deus. (GJ 5,378-390);  ele lembra aos judeus que seus antepassados foram protegidos de seus inimigos inúmeras vezes sem ter que pegar em armas. Aqui, ele se refere particularmente ao Êxodo do Egito e à libertação do jugo babilônico por obra de Ciro. A invasão dos romanos deve-se, na verdade, aos pecados do povo judeu (GJ 5,394-395).

 

Numa mesma linha de interpretação religiosa dos fatos, Hengel[64] indica como causa das revoltas o fato de os romanos terem desafiado elementos do credo judaico.

 

Outros estudiosos, como Heinz Kreissig[65],  sugerem abandonar a interpretação religiosa centrando a atenção particularmente nas questões sociais e econômicas que desencadearam o conflito. Uma análise que subestima essas questões pode passar uma visão distorcida dos fatos como aquela da Superinteressante que atribui, levianamente aos sicários, um dos grupos judeus envolvidos no conflito, a pecha de terem constituído “o primeiro grupo terrorista organizado da história[66].

 

Para reconstruir a realidade da população envolvida nos conflitos é preciso levar em consideração  que as descrições de Josefo a respeito de algumas regiões – Galiléia, Jericó, Engedi -- não se aplicam ao resto do país. Segundo ele

 

·        A região da Galiléia era rica em terras, pastagem e árvores de toda espécie

            (3,42).

·        Nas terras em torno do lago de Genesaré cresce de tudo, principalmente,

            nozes, palmeiras, figos e oliveiras (3,517).

·        O clima é temperado e a terra é irrigada por nascentes.

·        A Galiléia é menor que a Peréia, mas supera sua produção (3,44).

·        Na Galiléia não existe um único espaço que não seja cultivado (4,43).

·        A região de Jericó não pode ser confrontada com nenhuma região do mun-

            do em produtividade (4,473)[67]

·        A região do oásis de Engedi, na metade da margem ocidental do Mar Mor-

            to (396 mt abaixo do nível do mar), a 56 km de Jerusalém é também apre-       

            sentada como  uma região produtiva.

 

   Inicialmente, deve-se dizer que esta visão paradisíaca da Galiléia tecida por Josefo pode ser questionada pois perto do Lago de Genesaré existe uma região de solo basáltico, resultado de ação vulcânica que afetou uma faixa de 50 quilômetros iniciada desde o  lago de Hule (hoje drenado)[68].

 

Estrabão apresenta um outro quadro da topografia palestina Segundo ele, quase todo o território era seco e coberto de pedras (Estrabão XVI, 2.36). Os proprietários das melhores terras eram os descendentes da casa real.  A improdutividade da terra da maioria os levava a endividar-se. Nesse momento, multiplica-se a prática de empréstimos a juros. Os pequenos agricultores eram os mais atingidos pela improdutividade e pelas cobranças de taxas seja por parte do Templo de Jerusalém seja por parte dos romanos[69].

 

Os movimentos sociais na Palestina e em outras regiões do Império nascem nestas circunstâncias. A guerra judaica é apenas uma das tantas eclosões sociais  que romperam entre os anos 6 e 70 no Império. No entanto, FJ não conecta o que está acontecendo na Palestina com a realidade do resto do Império.

 

Estas revoltas já tinham se iniciado sob o helenismo. No Testamento dos 12 Patriarcas, os últimos governantes asmoneus são comparados a monstros do mar que escravizam seus filhos e filhas livres, roubando seus pertences (Testamento de Judá, 21).

 

Assim, devemos dizer que a hostilidade dos grupos judaicos descrita por Josefo não se embasa tanto em questões  religiosas mas em fatos concretos de opressão e exploração das classes inferiores por parte das lideranças locais e dos romanos. Aqui reside a razão para a existência de leistai, ou seja bandidos/terroristas  na Palestina, pessoas que por gerações  -- primeiro contra os sumo sacerdotes defendidos peles selêucidas, depois pelos asmoneus e Herodes e agora contra os romanos --- defenderam sua difícil existência contra o poder de seus verdadeiros “assaltantes”, o poder de Estado. Se Josefo não toca nestas questões, como já destacamos,  é principalmente porque ele pertencia à minoria dominante[70].

 

Após a morte de Herodes, as revoltas que não tinham sido coordenadas, assumiram uma nova forma,  agora chefiada por líderes bem definidos. Se tais líderes encontram uma fácil adesão das massas é devido à situação precária em que viviam[71].

 

O que FJ faz para justificar suas críticas aos rebeldes é demonizá-los  Ele assim o faz identificando suas ações “violentas” com o desrespeito às leis religiosas; colocando-os em choque com os valores judaicos. Com relação aos líderes da revolta , ele chega a exclui-los da nacionalidade  judaica, considerando-os inaptos para representar o sentimento nacional frente aos romanos, e logicamente, frente às lideranças locais.

 

Mas o que Josefo não revela é que a maioria da população – empobrecida --  quer é a eliminação da velha estrutura de Estado encabeçada pelo Sinédrio composto pelos sumos sacerdotes e grandes proprietários, juntamente com o nepotismo e enriquecimento à custa do povo, agora fortalecidos pela aliança com os romanos.

 

Josefo insiste em defender que a ordem social é dada por Deus, por sua ação, e que ele não se sente nem um pouco traidor do povo judeu ao bandear para os romanos que se tornaram a garantia da ordem na Palestina.

 

Assim, o quadro que FJ tece dos inimigos é o quadro da classe dominante da Palestina do 1º século da nossa era.

 

OS GRUPOS SOCIAIS DA PALESTINA DO 1º SÉCULO

      

Se de um lado pode-se falar em identidade judaica definida por um conjunto de normas comuns definidas na Tora, de outro, esse mesmo conjunto de normas é interpretado de diferentes maneiras pelos grupos que formam a nação judaica, ou seja, fariseus, saduceus e essênios (2,119). Durante a guerra contra romanos surge o grupo dos sicários (2,254) como um de seus sub-grupos.

 

O grupo que se envolve diretamente e mais profundamente nos conflitos e que se tornara porta-voz da  ampla camada dos de favorecidos é o dos  Sicários que coloca em causa o Estado usurpador por meio  de seus representantes, seus cúmplices e seus símbolos[72]. Judas, o Galileu, é indicado como o criador dessa filosofia que, segundo FJ, tem muito em comum com o pensamento fariseu, mas dele se distancia para ter uma maior autonomia. Não obstante, este grupo é indicado por FJ como sendo um ramo pernicioso do farisaísmo[73]. Ele reserva um amplo espaço à crítica deste grupo que interpreta Roma como uma das bestas apocalípticas contra a qual o povo deve lutar, um símbolo que será mais tarde retomado por João no Apocalipse (13,1). FJ atribui aos zelotas[74] e, principalmente, aos sicários (assim conhecidos por levarem uma sica=punhal na cintura, 2,425) a  responsabilidade pela catástrofe nacional gerada pelo confronto com os romanos[75]. Chega a dizer que compreende a sua aspiração à liberdade mas não aceita sua obstinação em querer realizar uma proeza impossível como aquela de vencer militarmente os romanos (2,95)[76]. Enquanto os zelotas se mantiveram ativos, principalmente, em Jerusalém, sob a liderança de Eleazar ben Simão, os sicários irão ter como principal meta a defesa de Massada, liderados por Eleazar ben Jair.

 

FJ utiliza o termo lêistês para se referir aos membros desse grupo, com o significado ora de bandidos, ora de revolucionários[77] devido à violência de sua ação no confronto dos romanos e de  seus colaboradores judeus. Outros grupos tinham precedido os sicários em ataques contra os romanos e também são chamados de bandidos (lêistai) por FJ (2,254).

 

Um dos atos dos revolucionários foi colocar fogo no arquivo do templo de Jerusalém, onde estavam depositados os contratos de empréstimo (2,427), o que pode indicar que um dos motivos de sua revolta eram os pesados juros pagos pela população por empréstimos contratados com a aristocracia local.

 

Essa ação tem fortes características de uma guerra civil e FJ diz que sua violência e conseqüências se equiparavam à de uma guerra com um inimigo externo. As pilhagens realizadas (4,408-409)  eram utilizadas para financiar sua ação contra os romanos. O grupo de João de Giscala, principal inimigo de FJ,  era acusado de invadir a casa dos ricos, matar e estuprar. (4,560). A revolta gerou, de fato, grupos de extremistas que extrapolaram os objetivos da luta contra os romanos e aristocracia judaica. Dentre estes está o grupo mais violento é o de Simão, filho de Jora, que além dos saques e ataques aos ricos importunava outras pessoas de maneira despótica (2,652). Ele chega a ser considerado pelo povo como um inimigo pior que os romanos (4,558). Os próprios zelotas tentam prender Simão (4,538).

 

Ao descrever esta espiral de violência, FJ vai construindo uma situação tal que faz dos romanos a única salvação para os judeus.

 

Hobsbawn[78] evidenciou que em sociedades agrárias, sob certas condições de crise econômica severa causadas por fatores como fome, inflação e altos impostos, ou anexação de terras, o banditismo pode atingir proporções epidêmicas. Ele pode surgir também quando se provoca rupturas em uma sociedade tradicional pela imposição de uma nova política ou sistema econômico.

 

Os desmandos da administração romana já tinham estimulado o surgimento deste  “banditismo” descrito por Josefo já na década de 30 e 40. Os camponeses, os mais atingidos por esta situação tendem a se aliar ou, pelo menos dar guarida a esse grupo, que como em outras situações, surgem naturalmente em momentos de excesso de pobreza e opressão[79]. Este banditismo social judaico constitui uma forma de rebelião pré-política que se distingue, como reconhece o próprio FJ (heteron eidos lêstôn,  2,254), dos sicários. Estes se distinguem por uma ação mais definida politicamente e pelo uso de estratégias de luta[80].

 

Na década de 60, FJ descreve um grande crescimento do banditismo que levou as camadas populares a um posicionamento cada vez mais claro contra a ordem estabelecida, o que acabou tornando-se a principal causa de revolta judaica.

 

A decisão romana de reprimir violentamente a revolta queimando e saqueando aldeias em todo o território (2,503-05) resultou num aumento do número de revoltosos, acrescido pelos fugitivos provenientes das cidades sírias, onde foram travadas muitas lutas contra os judeus.

 

O alvo destes grupos é, de um lado, os romanos e, de outro, a classe dominante judaica responsabilizada também pela crise interna. À medida que as condições da guerra tornavam insustentável a vida normal e produtiva, os camponeses se engajam nas fileiras do banditismo enquanto que os proprietários e os cidadãos eminentes dão seu apoio aos romanos (4,130).

 

Fugindo da perseguição romana, os vários grupos de revoltosos, inclusos os “bandidos”, se dirigem para Jerusalém  formando uma coalizão para lutar tanto contra os romanos e continuar a lutar contra os considerados dominadores internos, os sacerdotes ilegítimos e os poderosos donos de terra (4,138-157). No entanto, a luta não se restringe apenas a Jerusalém, onde o confronto é sobretudo contra os romanos; acontecem escaramuças em todo o país (4,406-09).

 

Dentre os membros destes grupos, surgem líderes como João de Giscala, Simão bem Jora que se tornam personagens centrais na condução da revolta e que se distinguem pela exploração dos ricos em benefício da defesa comum.

 

Enfim, um exame dos bandidos mencionados por FJ ajuda a compreender muito a respeito da sociedade judaica sob os romanos e ajuda a entender o background da revolta judaica.[81]

 

Após 68, toda a Palestina, incluindo a parte externa dos muros de Jerusalém, ficou sob o domínio dos exércitos romanos e, de 69 a 70, entra em cena um governo despótico com a proibição das assembléias populares para prevenir o surgimento de novas conspirações. As antigas formas constitucionais foram abolidas, e o Estado foi transformado num regime ditatorial pessoal[82].

 

Uma das penas aplicadas contra os revolucionários ´´e a crucificação, como ocorre com Eleazar e membros de seu grupo, a mando de Nero (2,253).

 

 

CONSEQÜÊNCIAS SOCIAIS E ECONÔMICAS DA GUERRA

 

 

O povo judeu como um todo sofre intensamente as conseqüências da guerra (5,343-44) e com relação aos rebeldes, a fome torna-se seu maior problema (5,429), instigando, segundo FJ, o furor homicida dos rebeldes (5,424) que suscitam na população atitudes que vão contra a própria natureza, eliminando qualquer sentimento: as mulheres tiram a comida da boca dos maridos, os filhos dos pais, as mães das crianças (5,430.515). Uma mulher judia, Maria, filha de Eleazar, cozinha e come o próprio filho (6,207). Esta é considerada a pior situação vivida pelo homem desde a criação do mundo (5,442). No fundo, trata-se de um situação de profunda miséria.

 

Jerusalém fica cheia de cadáveres (5,514; 5,59). Os 115.880 cadáveres transportados para fora da cidade eram na maioria de membros do povo simples. (5,567). Alguns dizem que esse número chegava a 600.000 (5,569).

 

Os romanos saqueiam tanto ouro dos judeus que na “bolsa de valores” da Síria o ouro perdeu 50% do seu valor (6,317); o número de prisioneiros chega a 96.000, dentre estes o número de indivíduos escravizados é tão grande que chegou a influir no mercado escravo, baixando os preços do setor (6,384). Dos prisioneiros que não foram escravizados, uma parte foi expatriada para o Egito (6,418) e outra obrigada a lutar na arena com animais ferozes (6,418).

 

A guerra, cujo centro é Jerusalém, envolve judeus de várias partes devido à sua presença em Jerusalém para a festa dos ázimos (mazot). Para calcular o nº de pessoas presentes nesta festa levou-se em consideração uma Páscoa, em Jerusalém, em que foram feitos 255.600 sacrifícios, sendo cada sacrifício oferecido por um grupo de 10 judeus, resultando numa presença de 2.556.000 judeus na cidade (6,422) por ocasião da principal batalha contra os romanos.

 

Uma outra conseqüência social da guerra são os suicídios coletivos narrados por FJ. Com relação a tais episódios, mesmo que FJ tenha sido influenciado por relatos semelhantes provenientes da literatura greco-romana, parece ter sido uma prática em situações limites envolvendo doenças incuráveis (1,662-663), assédio do inimigo, perda da liberdade, arrependimento por atrocidades praticadas (2,474-75;3,296;3,331;3,368.390-91). O suicídio podia envolver toda a família (4,71)[83].

  

Jerusalém, o principal palco das lutas, vê eliminados os traços de seu antigo esplendor (6,8) e esta é a segunda vez que a cidade é destruída. A primeira vez foi pelos babilônios em 585 a.C. (6,435).

 

 

IMAGINÁRIO RELIGIOSO

 

 

FJ se refere à presença de indivíduos que propagam falsas profecias[84] na Palestina, segundo as quais Deus interviria no conflito em defesa do povo judeu minando o poder romano. Segundo ele, estas idéias teriam impedido uma avaliação realista do conflito e da posição de desvantagem dos judeus nele, impedindo que se evitasse a morte de muitos deles  (6,285.288).

 

Sacerdotes do templo ouvem na festa de Pentecostes uma voz que dizia: “Sairemos deste lugar” (metabainomen ententhen) (6,299), como uma premonição da sua destruição pelos romanos. Cita-se outro sinal da destruição: quatro anos antes da guerra, um certo Jesus, filho de Ananias, proclamou no templo e pelas ruas da cidade o surgimento de  “...uma voz do oriente, uma voz do ocidente, uma voz dos quatro ventos, uma voz contra Jerusalém e o templo...” (6,300).

 

FJ analisa todas estas previsões como um cuidado que Deus tem pelo seu povo, indicando-lhe um modo de salvar-se. No entanto, continua, se tudo aconteceu é porque o homem não pode fugir ao seu destino mesmo quando o prevê. O próprio FJ se apresenta como tendo tido sonhos prenunciadores da calamidade que envolve os judeus, sonhos que ele próprio procura  interpretar. (3,352)[85].

 

Com isso Josefo acaba dizendo que uma explicação para a catástrofe pode ser simplesmente o DESTINO QUE JÁ TINHA SIDO TRAÇADO PARA O POVO JUDEU. 

 

A respeito da profecia, encontrada na Escritura, de que surgiria um dominador do mundo proveniente de Israel, FJ defende que ela é cumprida por Vespasiano (6,5,4) que se torna imperador no período do conflito. Considera-se que tal profecia se referia a uma intervenção de um Messias que estenderia o reino de Israel a todos os povos. FJ, no entanto, a interpreta em chave imperial (adventus Augusti)[86], ou seja, os romanos são considerados quase que como um Messias para FJ. Assim, o próprio dominador torna-se um Messias surgido para salvar o dominado.

 

CONCLUSÃO

 

Em A Guerra Judaica, FJ traz muitas informações militares, destacando o poder dos romanos e a incapacidade e ousadia dos judeus de enfrentá-los numa batalha cujo resultado, segundo ele, já estava definido desde o seu início.

           

Não obstante a falta de imparcialidade detectada na obra do autor, como fariseu filo-românico, suas informações obtidas por meio de seu testemunho pessoal ou do apoio de suas fontes diretas ou indiretas permitem enriquecer as informações sobre a vida quotidiana na Palestina, mesmo que elas não tenham sido priorizadas no relato.

          

A política de Herodes e de seus sucessores torna a Palestina um país de miseráveis e de injustiças.. Este fato aliado à situação de privilegio vivida pela aristocracia judaica em troca de seu apoio a Roma, suscitam muitos conflitos internos que antecedem  e acompanham o confronto direto com Roma.

 

Os líderes da revolta encontram poucas dificuldades para reunir grupos de revoltosos que se multiplicam rapidamente pelo país atacando. O longo período de lutas cria dificuldades para o sistema produtivo fazendo escassear os gêneros de primeira necessidade e aumentando rapidamente seus preços.

 

A preocupação com os valores nacionais, principalmente o respeito às regras e ritos religiosos perdem lugar para a necessidade de sobreviver. Por mais que as lideranças religiosas tentassem demover a população de um confronto “suicida” com os romanos, o desespero generalizado não deixa vislumbrar outra alternativa.

 

Os discursos acalorados de FJ para colocar os judeus diante de sua incapacidade de enfrentar os exércitos romanos não têm efeito algum. O nacionalismo – ou a fome – fala mais alto.

 

O volume de grupos envolvidos no conflito impede a organização da resistência interna, jogando tais grupos uns contra os outros, perdendo-se o controle da situação. Os momentos de união são poucos e fugazes.  Este descontrole leva FJ a denominar os membros de boa parte destes grupos de “bandidos”, não reconhecendo neles mais seus compatriotas pré-herodianos.

 

Alguns grupos possuem uma coesão interna muito forte que os leva a ações radicais, como aquele liderado por Eleazar ben Jair que estimula um suicídio coletivo envolvendo 960 judeus para evitar a capitulação aos romanos.

 

A derrota recrudesce a situação; além do grande número de morto e prisioneiros, o Templo, centro financeiro da Palestina, é espoliado de suas riquezas que são levadas por Tito para Roma, que desfila  com elas sob o Arco construído para comemorar a vitória sobre os judeus – o Arco de Tito.

 

Enfim, FJ demonstra que pode ter apenas um controle literário sobre os conflitos, obtendo direta ou indiretamente muitas informações sobre ele, mas seus artifícios retóricos, a serviço do poder romano, não conseguiram evitar que um conflito desmantelasse o estado judaico, iniciando um amplo processo de diáspora que caracterizaria, doravante, a história judaica..

 

 

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Ivan Esperança Rocha

Assis, 04de abril de 2002

 

 



[1] Departamento de História – FCL – UNESP, Campus de Assis-SP

[2] BURGIERMAN, Denis R. De Judas a Bin Laden. Superinteressante,  outubro 2001, p. 45.

[3] Doravante utilizaremos a sigla FJ para Flávio Josefo.

[4] Sobre a relação de Josefo com o helenismo: FELDMAN, Louis F. Josephus and hellenism: his greek assistants. In: ___________. Studies in Hellenistic Judaism. Leiden: E.J. Brill, 1996, p.100-124.

[5] SCHRECKENBERG, H. Bibliographie zu Flavius Josephus [1470-1968]. Leiden, 1968.

[6] JOSEPHUS. The jewish war. Trad. e com. H.St.J. Thackeray. Cambridge: Harvard University Press,  1968, v. II e III (Loeb Classical Library),  v. 1, p.V .

[7]BUTTRICK, G.A. The interpreter’s dictionary of the Bible. Nashville: Abingdon, 1962, v. 2, p.987. SCHURER, Emil. The history of the Jewish people in the age of Jesus Christ (175 b.C.-A.D. 100). Edinburgh: T & T Clark, 1979,  v. 1, p.58.

[8] VVAA. Flávio Josefo: uma testemunha do tempo dos apóstolos. Trad. I.F.. Leal Ferreira. S. Paulo: Paulinas, 1986, p.6

[9] SCHRECKENBERG, H. Die Flaivus-Josephus-Tradition in Antike um Mittelalter. Leinden: Brill, 1972, p.XIII-XIV, citado por SIERVERS, Joseph. New Resources for the Study of Josephus, op.cit., p.1

[10] VITUCCI (FLAVIO GIUSEPPE,  La guerra giudaica. Trad. e notas G. Vittucci. S.l.:Arnaldo Mondadori Ed.

     1974, v. 1, p.XXXVIII-XL.

[11] Para bibliografia sobre as traduções da obra de Josefo em línguas modernas: FELDMAN, Louis H. Josephus and Modern Scholarship (1937-1980), op.cit., p.28-39.

[12] SIEVERS, J. New resources for the study of Josephus. Roma: Pontifício Instituto Bíblico, 1998, p. 7-8.

[13] Pesquisa realizada em outubro de 2000,  utilizando o WebFerret.

[14] http://members.aol.com/FLJOSEPHUS/home.htm 

[15] http://www.uni-muenster.de/Judaicum/Welcome.html

[16] www.perseus.tufts.edu

[17] SIEVERS, J. op.cit., p.2.

[18] Para bibliografia sobre a contribuição da arqueologia no estudo das obras de FJ: FELDMAN, Louis H. Josephus and Modern Scholarship (1937-1980), op.cit. 735-769.

[19] BROSHI, Magen. The credibility of Josephus, Journal of Jewish Studies 33 (1982), p.379-380.383.

[20] Exageros e imprecisões na indicação do número de população é um problema presente também em outros documentos antigos como aqueles da historiografia grega (FINLEY, M. I. História Antiga.  Testemunhos e modelos, Trad. Valter L Siqueira. São Paulo: Martins Fontes, 1994, p.58-59.83-84).

[21] BROSHI, Magen. La population de l’Anciènne Jérusalem. Revue Biblique, 82 (1975) 5. BYATT, Anthony. Josephus and population numbers in first century Palestine. Palestine Exploration Quarterly, 1973, p.55

[22] BYATT, Anthony. Josephus and population numbers in first century Palestine, Palestine Exploration Quarterly, 1973,  p.58. É exagerado também o número de judeus mortos em Jerusalém durante a guerra: 1 milhão e 100 mil (6,420).

[23] BYATT, Anthony, op.cit., p.51

[24] AVI-YONAH, Michael. The jewish people in the first century. In: SAFRAI, Samuel, STERN, Menahem (eds). The Jewish People in the First Century: Historical Geography, Political History, Social, Cultural, and Religious Life and Institutions. Philadelphia: Fortress Press, 1974, v.1, cap.2. (Compendia Rerum Iudaicorum ad Novum Testamentum, Sect. 1) . Em 1993, a população da Palestina é de 3,5 milhões.

[25] VIDAL-NAQUET, Pierre. Flavius Josèphe et Massada, op.cit., p.12; NEWELL, Raymond R. The forms and historical value of Josephus suicide accounts. In: FELDMAN, L.H. HATA, Gohei. Josephus, the Bible and history. Detroit: Wayne State University Press, 1989, p.278; SHANKS, Hershel. Masada. Biblical Archaeology Review, jan-fev 1997, p.61. Nas escavações arqueológicas de Massadas realizadas por Yigael Yadin foi encontrado um documento – Cântico do sacrifício de Shabbath – que estava também entre os achados de Qumran, o que pode indicar a presença de essênios entre os seguidores de Eleazar (SHANKS, H., op.cit., p.62).

[26] SHANKS, Hershel, Masada. Biblical Archaeology Review, jan-fev 1997, p.62-63.

[27] VIDAL-NAQUET, Pierre, op. cit., p.10.

[28] NEWELL, Raymond R. The forms and historical value of Josephus suicide accounts, op.cit., p.297.

[29] COHEN, Shaye J.D. Masada: literary tradition, archeaological remains and the credibility of Josephus. Journal of Jewish Studies 33 (1982) p.386-389; NEWELL, Raymond R. The forms and historical value of Josephus suicide accounts, op.cit., p.278-279.

[30] COHEN, Shaye J.D. op. cit., 396. 398-99.

[31] Idem, p.401. 404.

[32] NEWELL, Raymond R., op.cit., p.289-290.

[33] FJ chega a descrever até seus pensamentos (4, 224). Clientelismo, tipo de relação social baseado na amizade e no companheirismo (FUNARI, P.P.A. Roma. Vida pública e vida privada. São Paylo: Autual, 1993, p. 71).

[34] RAPPAPORT, U. John of Gischala: from Galilee to Jerusalem. Journal of Jewish Studies 33 (1982) p.484-485.

[35] BURGIERMAN, Denis R. De Judas a Bin Laden, op. cit., p. 45.

[36] Em todas as citações de A Guerra Judaica de Flávio Josefo será omitida a citação da obra. P.ex. (3,401) significa (A Guerra Judaica 3,401). Será usada a sigla GJ apenas quando for necessário distinguir a obra de Josefo de outras citadas no mesmo espaço)

[37] JOSEPHUS. The Jewish War. Trad. H.St.J.Thackeray, op.cit., v. I, p.VII.

[38] COHEN, S.J.D. Josephus in Galilee and Rome: his Vita and developments as a historian. Leiden: Brill, l979. Uma posição diametralmente oposta àqueles que defendem cegamente a intocabilidade de FJ como Bright, J. História de Israel. Trad. Euclides Carneiro da Silva. São Paulo: Paulinas, 1978, p.566

[39] Nasceu aprox. em 64 a.C.)

[40] FJ entra em contato com este documento após a composição de GJ,  pois não faz referência a este nesta obra. Cf SCHÜRER, Emil. The history of the Jewish people in the age of Jesus Christ (175 b.C.-A.D. 100).   Edinburgh: T & T Clark, 1979,  v.1, p.33.

[41] Séc. II d.C.

[42] Tem posição destacada na Guerra Judaica de 66-7 d.C.

[43] 64 a.C.-21 d.C., aprox.

[44] 50-120 d.C., aprox.

[45] Sua obra é escrita por volta de 150 d.C.)

[46] Sua obra é escrita nas duas primeiras décadas do séc. III d.C.

[47] 56-120 d.C., aprox.

[48] 69-125 d.C., aprox.

[49] SCHÜRER, Emil., op.cit., v. 1, p.11-12.26-37.63-68.

[50] SIMON, Marcel, BENOIT, André. Judaísmo e cristianismo antigo. De Antíoco Epifânio a Constantino. Trad. Sonia Maria S. Lacerda. São Paulo: Livraria Pioneira Editora/EDUSP,  1987,  p.53. Pompeu é quem derrota as últimas tropas de Espartaco

[51] LEIPOLDT, J., GRUNDMANN, W. El mundo del Nuevo Testamento. Trad. do al. Luiz Gil. Madri: Ediciones Cristiandad, 1973, p. 174.

[52] STAMBAUCH, J.E., BALCH, D.L. O Novo Testamento em seu ambiente social. João Resende Costa. S.Paulo: Paulus, 1996 p.18-19

[53] SCHÜRER, Emil. op.cit.. v. I, p.405-407.

[54] As riquezas retiradas do Templo de Jerusalém serão levadas por Tito para Roma, que desfila  com elas sob um Arco construído para comemorar a vitória sobre os judeus – o Arco de Tito.

[55] STAMBAUCH, J.E., BALCH, D.L., op.cit., p.21-22. Sobre o censo de Quirino: SCHÜRER, Emil. op.cit.,  v. 1, p.399-427.

[56] ALFÖLDY, Géza. A história social de Roma. Trad. Maria do Carmo Cary. Lisboa: Editorial Presença, 1989, p.123-124.

[57] Idem, p.129-130.

[58] Idem, p.149

[59] Idem, p.171.

[60] Idem, p.160-61.

[61] Idem, p.168.

[62] KREISSIG, Heiz. A marxist view of Josephus account of the Jewish war. In: FELDMAN, L.H. HATA, Gohei (ed.). Josephus, the Bible and History. Detroit: Wayne State University Press, 1989, p. 274.

[63] Die Geschichtsauffassung des Flavius Josephus im Bellum Judaicum, Leiden, 1972.

[64] (Judentum und Hellenismus, Tübingen, 1973.

[65] A marxist view of Josephus account of the Jewish war. In: FELDMAN, L.H. HATA, Gohei (ed.). Josephus, the Bible and History. Detroit: Wayne State University Press, 1989, p. 265-277

[66] BURGIERMAN, Denis R. op.cit. p. 45.

 

[67] Josefo faz aqui um parênteses para falar de Jericó, o que talvez possa ser uma adição à sua obra.

[68] WILKINSON, John. Jerusalém anno Domini. Trad. Bárbara Theoto Lambert. São Paulo: Melhoramentos, 1993, p.21.

[69] KREISSIG, Heiz. op.cit.,  p. 267-268.

[70] Idem, p. 270-71.

[71] Idem, p. 271.

[72] VIDA-NAQUET, P. op.cit., p.4.

[73] HADAS-LEBEL, Mireille. Flávio Josefo. O judeu de Roma. Trad. Paula Rosas. Rio de Janeiro: Imago, 1991, p.49.

[74] A partir de 4,161,  os revoltosos (sicários) começam a ser chamados de zelotas. Uma das pesquisas mais importantes sobre os zelotas é aquela de HENGEL, M. Die Zeloten. Leiden: Brill, 1961, que se tornou a base do artigo, utilizado neste trabalho, escrito por HORSLEY, Richard A. Ancient Jewish Banditry and the Revolt against Rome, A.D. 66-70. The Catholic Biblical Quarterly 43 (1981) p.409-432.

[75] Idem, p.53

[76] FJ, ao colocar na boca do sumo-sacerdote Ananus uma defesa da liberdade — portanto, um posicionamento anti-romano —, deixa transparecer a ambigüidade de seu posicionamento no conflito (4,178). Qual a diferença entre a liberdade buscada pelo grupo aristocrático e aquela dos grupos revolucionários? Outro exemplo de ambigüidade ou até mesmo de incoerência presente na obra de FJ. é o perfil atribuído aos Idumeus: de um lado, FJ os identifica como gente turbulenta e facínora, de outro coloca na boca do sumo-sacerdote Jesus um conceito desse povo diametralmente oposto: eles são "indivíduos, por natureza, amantes da liberdade e sempre prontos a lutar contra o inimigo externo..." (IV,246).

[77] ARNDT, W.F., GINGRICH, F.W. A greek-english lexicon of the New Testament and other early Christian literature. Chicago: The University Press of Chicago, 1980. O termo aparece 46 vezes em A Guerra Judaica. Doravante utilizaremos o termo revolucionários para nos referir aos sicários e zelotas.

[78] HOBSBAWN, E.J. Rebeldes primitivos. Estudos sobre formas arcaicas de movimentos sociais nos séculos XIX e XX. Trad. Waltensir Dutra.  Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p.15.

[79] HORSLEY, Richard A. op.cit.,  p.422. Segundo HANSON K.C., OAKMAN, D.E. (Palestine in the Time of Jesus: social structures and Social Conflicts. Menneapolis: Fortress Press, 1998, p. 90-95) estudos de antropólogos indicam que camponeses não se revoltam ou expressam seus sentimentos de hostilidade diante da opressão das elites. Eles geralmente encontram caminhos velados para protestar: não revelando segredos, mentindo para as elites, escondendo mercadorias do fisco, sabotando as elites.

[80] HORSLEY, Richard A. op.cit.,  p.422.424.

[81] Idem, p.431-432.

[82] Idem, p.314.318.

[83] O suicídio acontece também entre os soldados do exército romano para não se entregarem aos judeus (6,188).

[84] Acima indica-se que FJ não se dá conta das expectativas apocalíptico-messiânicas contemporâneas, que podem se identificar com as idéias propagadas por estes “falsos profetas”.

[85] Sobre os sonhos nos escritos de FJ, GNUSE, Robert K. Dreams and dream reports in the writings of Josephus. A traditio-Historical Analysis. Leinden: E.J. Brill, 1996.

[86] Cf MICHEL-BAUERNFEIND. De bello judaico. Der Jüdische Krieg. Herausgegeben und mit einer Einleitung sowie mit Anmerkungen versehn von Otto Michel und Otto Bauernfeind, Darmstadt-mündchen, 1959-1969, v. 2, p.190ss, citado por FLAVIO GIUSEPPE,  La guerra giudaica. Trad. e notas G. Vittucci., op.cit., v. 2, p.576.