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MUHAMMAD: SOBRE ELE A PAZ

José Maria Silva [1]

 

O título que encabeça esses escritos deixa claro qual é a linha que o autor vai seguir ao caracterizar essa figura ímpar da história: ‘Muhammad – sobre ele a paz’. Essa saudação é acrescida toda vez que o nome do Profeta é mencionado entre os muçulmanos, fato que raramente acontece, pois ele é tratado simplesmente por o Profeta. Com a explicitação dessa prática árabe, pelo menos no início dessas reflexões, o que se quer é tratar o assunto com muito respeito, algo extremamente necessário para todos aqueles que também querem ser respeitados em suas convicções e crenças.

O profeta receberá aqui um tratamento respeitoso, digno do tamanho do seu legado. A presença do islamismo atualmente é um fato inegável, tendo inclusive ultrapassado a religião católica em número de seguidores em todo o mundo. Daí a importância de se tentar [2] entender historicamente o seu fundador e a história do surgimento e expansão do islamismo, assim como o sentimento que move milhões de pessoas no mundo inteiro ao seguimento da Palavra revelada através do Profeta no Corão.

Apesar do tema central ser Muhammad, optou-se por uma prévia caracterização histórico-geográfica do momento imediatamente anterior ao surgimento do Profeta como tal e por uma posterior caracterização do islamismo e sua base de sustentação.

Torna-se impossível falar de Muhammad sem falar no islamismo e sua base de sustentação que é o Corão. Isso porque ele é, como ver-se-á a seguir, o receptáculo da Palavra que enlivrou-se no Corão.

 

Contextualização geográfico-histórica

 

Início do século VII cristão. Algo novo estava para surgir, de maneira tão forte que iria abalar as relações religiosas e políticas posteriores, até os nossos dias. O que estava acontecendo no mundo[3] nos momentos imediatamente anteriores ao surgimento do islamismo com Muhammad?

Dois reinos. Muitos deuses! Às margens de dois grandes impérios, o Bizantino e o Sassânida, e em meio ao culto generalizado a vários deuses, surge um movimento religioso que dominou a metade ocidental do mundo.

Império Bizantino. Oficialmente cristão desde 313 . O antigo Império Romano emprestou a atual denominação de Bizâncio, nome anterior de sua atual capital, Constantinopla. Mas o que o imperador romano estava fazendo a leste do mar Mediterrâneo, longe de sua original capital, Roma? O centro de poder do grande império, com as invasões bárbaras germânicas, culminando com a tomada de Roma, foi transferido para o seu lado ‘oriental’. O cristianismo, nesse momento, mesmo ancorado no Estado, estava dividido em disputas doutrinais internas. As principais diferenças referiam-se à natureza de Cristo. Oficialmente, no Concílio de Calcedônia, em 451, a segunda pessoa da Trindade tinha sido definida como tendo duas naturezas, divina e humana, o que era aceito por todo o corpo principal da Igreja, mesmo o oriental, que mais tarde iria questionar a autoridade do papa em Roma. Algumas comunidades, porém, através da doutrina monofisista, sustentavam que Cristo tinha uma única natureza, composta de duas. Outros, conhecidos como nestorianos, predominantes entre os cristãos do Iraque,[4] além da fronteira bizantina, faziam uma divisão ainda mais precisa entre as duas naturezas, a fim de manter a total humanidade de Jesus. Já no século VII surgem os monoteletas que, numa tentativa de acordo entre as posições ortodoxa e monofisista, defendiam que Cristo tinha duas naturezas, mas uma só vontade.

Império Sassânida. Leste do Império Bizantino, do outro lado do rio Eufrates. Atual Irã e Iraque, adentrando Ásia Central. Estado familiar, governado por uma hierarquia de funcionários que, revivendo uma antiga religião do Irã, o zoroastrismo de Zoroastro, tentava proporcionar uma base sólida de unidade e lealdade. Para Zoroastro, abaixo do Deus supremo, o universo era um campo de batalha entre bons e maus espíritos. O bem acabaria por vencer, mas sua vitória poderia ser apressada. Sob os Sassânidas, a doutrina de Zoroastro foi revivida em moldes filosóficos,[5] enfatizando o dualismo bem e mal, tendo uma classe sacerdotal e um culto formal. O zoroastrismo – ou mazdaísmo, como ficou conhecido – tornou-se Igreja do Estado, defendendo o poder do soberano, visto como um rei justo, que preservava a harmonia entre as diferentes classes da sociedade.[6] Além de zoroastrianos e cristãos da Igreja nestoriana,[7] viviam também no Iraque, os seguidores de Mani, mestre iraniano que tentara incorporar todos os profetas e mestres num único sistema religioso – o maniqueísmo.

Península arábica. Entre os dois grandes impérios, em solo basicamente de estepe ou deserto, com oásis isolados, viviam os beduínos – nômades criadores de animais –, os agricultores estabelecidos – permanecendo próximos aos oásis – e, finalmente, os comerciantes e artesãos – nas feiras dos pequenos vilarejos. Vivendo em tribos, mantinham-se em um precário equilíbrio, sendo que os lavradores e artesãos eram dominados pelos beduínos e mercadores das aldeias.

Muitos deuses! A força da religião podia estabelecer um novo tipo de poder. Os pastores e agricultores acreditavam em deuses locais, identificados com objetos no céu, se incorporando em pedras, árvores e outras coisas naturais. Para eles, bons e maus espíritos corriam o mundo em forma de animais e os adivinhos afirmavam falar com a língua de um saber sobrenatural. Esses deuses, separados do conflito tribal, habitavam o haram, santuário que funcionava como centro de peregrinação, sacrifício, encontro e arbitragem, supervisionado por uma família sob a proteção de uma tribo vizinha. Daí o prestígio religioso.

 

Muhammad – caracterização histórica

 

O Profeta – como normalmente o fundador do islamismo é chamado pelos muçulmanos – nasceu na cidade de Meca [8] no ano cristão de 569 (ou 570) e viveu até 632, quando veio a falecer em Medina. Quando seu nome é pronunciado pelo muçulmano deve vir acompanhado de uma saudação: “Muhammad – sobre ele a paz” (NASR, apud BARTHOLO Jr.; CAMPOS, 1990, p. 64).

Segundo seus biógrafos, a parte inicial de sua vida é a mais obscura. Oriundo da ramificação menos poderosa (clã Hachim) da tribo dos mercadores coraixitas de uma aldeia da Arábia Ocidental, Muhammad, órfão de pai, morto antes de seu nascimento, perdeu a mãe, Amina, ainda menino, ao seis anos de idade. Desde então foi criado pelo avô e após a morte deste, pelo seu tio. Trabalhou no comércio de caravanas, uma tradição de sua tribo, angariando a reputação de inatacável honestidade que lhe valeu a alcunha de al-amin, “o digno de confiança”.[9] Tornou-se condutor de caravanas da quadragenária e rica Khadija, com quem se casou [10] aos vinte e cinco anos, tendo com ela quatro filhas e um filho (ou talvez dois) morto (ou mortos) ainda pequenino (s). Das filhas, três morreram antes do pai, sendo que a quarta, Fátima, foi dada em casamento a ‘Ali ibn Abu Talib, seu primo e amigo desde a mais tenra infância.

Dizem algumas lendas que Muhammad teria se encontrado com um monge sírio, Bahira, que teria detectado entre seus ombros uma pinta, interpretando-a como o “selo da profecia” e anunciando que o jovem teria um futuro brilhante.

Após a revelação [11] da palavra de Deus, Muhammad, então com aproximadamente quarenta anos, começa a pregar em público e sente entre seus conterrâneos de Meca uma grande indiferença, chegando posteriormente à oposição declarada que recrudescia cada vez mais. Afinal, não era ele um simples adivinho como tantos em sua época, ou um poeta que dizia coisas bonitas, embora inaceitáveis? Apesar disso um grupo de jovens, entre eles seu primo e amigo ‘Ali e seu futuro sogro Abu Bakr, o apoiava, dando início a uma pequena comunidade.

A partir do ano 619, momento já particularmente difícil devido às mortes de sua esposa Khadija e de seu tio Abu Talib, Muhammad vê aumentar significativamente a oposição adversária aos seus ensinamentos. Daí em diante sua situação em Meca só iria piorar. Então, inesperadamente, alguns habitantes de Yathrib (cidade ao norte de Meca), que tinham tido contato com o Profeta em uma peregrinação, recorrem a ele, pedindo-lhe que fosse o árbitro de algumas disputas de seus clãs locais. Alguns homens de confiança foram enviados com antecedência, seguindo depois o Profeta acompanhado de Abu Bakr. Percebendo sua ‘fuga’,[12] vários perseguidores mequenses saíram em seu encalço, obrigando os dois viajantes a refugiarem-se em uma caverna. Daí surgiu uma lenda segundo a qual uma aranha, para proteger o esconderijo, teceu uma teia na boca da caverna, despistando os perseguidores.

Esse fato ocorreu no ano de 622 e foi denominado de hégira, momento crucial e decisivo para Muhammad. Ele que até então tivera pouco êxito em sua pregação, foi chamado a aplicar o seu ideal a uma realidade política concreta. É exatamente por esse motivo que o calendário islâmico começa no ano 622, com a hégira.

Após a pacificação daqueles clãs, levada a cabo com muito êxito, Yathrib teve o seu nome mudado para Medina (madinat an nabi), a “cidade do Profeta”. A partir daí aconteceram algumas batalhas entre os mequenses, indignados com os progressos da cidade-oásis do norte, e os muçulmanos de Medina, comandados pelo Profeta, cabendo a esses a vitória final.[13] Crescia, a partir daí, a comunidade muçulmana.

Crescia também a família do Profeta que, após a morte de sua esposa, casou-se com diversas outras mulheres,[14] talvez nove, em sua maioria viúvas de guerreiros ou separadas, [15] sendo a filha de Abu Bakr, A’isha, a única a casar-se virgem. Por ser essa a sua preferida, o Profeta, um marido carinhoso, sofria com a querela e ciúme de suas outras mulheres.

O vigor sexual de Muhammad, além de sua atuação política, que suscita muitas críticas dos estudiosos ocidentais, é para os muçulmanos, “a demonstração de que ele, contrariamente a um cristianismo de ascese e evasão, desejava santificar também este mundo” (SCHIMMEL, apud BRUNNER-TRAUT, 1999, p. 141).

Oito de junho de 632. Muhammad falecia na casa de sua jovem esposa A’isha. Seu sogro, Abu Bakr, assume como primeiro califa[16] a direção da comunidade, na oração e na guerra. Não se pode retratar a figura do “belo exemplo”,[17] por isso o que temos dele são descrições físicas: “Não excessivamente grande, nem pequeno, com uma tez radiosa, não muito branco, não com cabelos curtos e crespos, nem com longas madeixas escorridas, com uma testa larga e aberta e longas pestanas, com uma cabeça perfeita e uma barba cerrada [...]” (SCHIMMEL, apud BRUNNER-TRAUT, 1999, p. 144).

No Profeta reúnem-se a sabedoria e a beleza de todos os profetas anteriores e é exatamente por isso que a tradição muçulmana não aceita a existência de outro profeta após Muhammad. Ele é o “selo dos Profetas” (Sura 33,40).[18]

 

O Profeta – a Revelação – o Corão

 

“O Profeta, como fundador do Islã e mensageiro da Revelação de Deus para a humanidade, é o intérprete par excellence do livro de Deus” (NASR, apud BARTHOLO Jr.; CAMPOS, 1990, p. 64). “Você pode negar Deus, mas não pode negar o Profeta” (BARTHOLO Jr., 1994, p. 160). De onde vem tal importância dada a um homem, aparentemente igual a todos os outros? Por que tal distinção?

De acordo com as fontes tradicionais muçulmanas, Muhammad, nascido em Meca no ano 569 (ou 570) cristão e tendo vivido até o ano de 632, data de sua morte em Medina, teve uma devastadora experiência por volta de 610, quando estava com aproximadamente quarenta anos. Ainda jovem tinha adotado o hábito de retirar-se para uma gruta nos arredores de Meca para meditar e orar. Numa de suas vigílias, um anjo,[19] visto em forma de um homem no horizonte, convocou-o a tornar-se mensageiro de Deus e ordenou-lhe secamente: ‘iqra, “leia!” ou “recite!” Ele respondeu: “Eu não sei ler, nada entendo de recitação”. Nesse momento, segundo Muhammad, “o anjo simplesmente envolveu-o num abraço imobilizante, fazendo-o sentir-se como se todo o ar estivesse sendo espremido para fora de seu corpo”. Depois de mais duas recusas e “ao cabo de um terceiro abraço aterrorizante”, já sentindo que “as primeiras palavras de uma nova escritura jorravam de sua boca” (ARMSTRONG, 1994, p. 145), Muhammad perguntou: “Que devo recitar ?” E a voz respondeu:

 

Recita: em nome de vosso Senhor que criou,

criou o homem de um coágulo de sangue.

Recita: e vosso Senhor é o mais generoso,

que ensinou junto ao aprisco,

ensinou ao homem o que ele não sabia.

Não, de fato: certamente o homem faz-se insolente,

pois se julga auto-suficiente.

Certamente em vosso Senhor está a volta (Corão 96,1).

 

Essa foi a primeira revelação, pronunciada em língua árabe, e está contida na Sura 96 do Corão.[20]

Oprimido pelo choque dessa experiência, em estado de terror e repulsa,[21] horrorizado por pensar que poderia ter-se tornado um mero kahin,[22] em profundo desespero Muhammad, “correndo para fora da gruta, decidiu jogar-se do cume [da montanha] para a morte”. Foi então que ele ouviu uma voz do céu dizendo: “Ó Muhammad! Tu és o apóstolo de Deus e eu sou Gabriel” (ARMSTRONG, 1994, p. 146).

De volta para casa, ainda em estado de choque, arrastando-se de quatro, tremendo violentamene, Muhammad jogou-se no colo de sua esposa Cadidja gritando: “Cobre-me! Cobre-me!”, como a pedir proteção da presença divina. Convencido por sua mulher de que a experiência que tivera era divina e após um período de inanição, que o levou às raias do desespero, recomeçaram as audições proféticas: “exortação aos homens, para que levassem a sério a sua responsabilidade moral, cuidassem dos pobres e órfãos, caso contrário, Deus os castigaria, pedir-lhes-ia contas segundo Sua justiça” (SCHIMMEL, apud BRUNNER-TRAUT, 1999, p. 136).

Essas audições prosseguiram por um período de 23 anos,[23] tempo de duração da revelação do Corão ao Profeta, ocorrida aos poucos, linha por linha e versículo por versículo, constituindo sempre uma experiência dolorosa. Isso porque a mensagem divina nem sempre chegava  de uma forma clara. Havia momentos em que ela era angustiantemente inarticulada, chegando como reverberações de um sino que somente cessavam quando o Profeta tomava consciência da mensagem. Nesse processo difícil, ele entrava em transe e ocasionalmente perdia a consciência, suando em profusão, mesmo nos dia frios, sentindo um peso interior e, como se um grande sofrimento o obrigasse, baixava a cabeça entre os joelhos.[24]

A base da moralidade do Corão era a revelação da unicidade de Deus, conforme a Sura 112:

 

Dize: Ele é Deus, o Único!

Deus! O Absoluto!

Jamais gerou ou foi gerado! [25]

E ninguém é comparável a Ele!

 

“O Profeta não sabia ler e escrever” (SCHIMMEL, apud BRUNNER-TRAUT, 1999, p. 138) e, desta forma, analfabeto, foi unicamente o receptáculo da Revelação. Assim, da mesma forma que na concepção cristã a palavra de Deus se encarnou em Jesus, no islamismo Ela se enlivrou no Corão. Também, assim como na Encarnação se pressupõe a virgindade de Maria, da mesma forma a enlivração pressupõe que o transmissor da palavra é um vaso não contaminado por conhecimentos intelectuais, e que nada acrescenta de próprio e pessoal à sua Revelação.

 

O islã

 

Após sua morte, Muhammad foi sucedido no governo da comunidade por Califas,[26] sendo que os primeiros foram seu velho companheiro e sogro Abu Bakr (632-633), ‘Umar (633-644)[27] e Uthman (644-656). Fruto das primeiras divisões internas, o  2º e o 3º califas foram assassinados e a escolha do sucessor originou o primeiro período de guerra civil na comunidade. O pretendente à sucessão, ‘Ali (656-661), primo e genro de Muhammad, não foi aceito pelos parentes do último califa, ‘Uthman. Apesar de vencedor, ‘Ali ficou muito enfraquecido politicamente ao fazer um acordo com o governador da Síria, Mu'awiya, parente próximo de ‘Uthman. Ao aceitar a arbitragem de delegados na solução das disputas, perdeu o apoio de seus próprios aliados que não estavam dispostos a contemporizar e submeter a vontade de Deus a julgamento humano. ‘Ali foi assassinado em sua própria cidade e Mu'awiya (661-680) proclamou-se califa, sendo aceito por Hasan, filho de ‘Ali.

Os quatro primeiros califas são conhecidos como “Corretamente Guiados” (Rashidun) sendo que os seguintes são vistos sob uma luz um tanto diferente. Além disso, o cargo passou a ser praticamente hereditário. Após ‘Ali dois califados se sucederam: o de Damasco e o de Bagdá.

Se ao final do século IV islâmico se reconhecia claramente um “mundo islâmico”, uma terra governada e povoada por muçulmanos, no século X seus habitantes já viviam num universo definido em termos do Islã. Existia uma identidade pela qual definir-se em relação aos outros e, além disso, as pessoas sabiam que pertenciam a uma coisa mais ampla: a comunidade dos fiéis (umma).

O Islã estava assentado sobre cinco pilares básicos que formavam o conjunto de práticas a serem seguidas por todos os muçulmanos, algumas obrigatoriamente e outras dentro das possibilidades de cada um.

a)      Shahada – O testemunho de que “só há um Deus, e Muhammad é o seu Profeta”. É o credo básico.

b)      Salat – Inicialmente essa prece ritual era praticada duas vezes por dia, depois se convencionou que seriam cinco vezes: ao amanhecer, ao meio-dia, no meio da tarde, após o crepúsculo e na primeira parte da noite. O momento da prece era anunciado pelo muezim, de um lugar elevado, da torre ou minarete junto à mesquita.

c)      Zakat – Eram doações tiradas da própria renda para certos fins específicos: para os pobres, os necessitados, o socorro aos endividados, a libertação de escravos, o bem-estar dos viajantes. Era uma obrigação para aqueles cuja renda ultrapassava uma certa quantia.

d)      Sawn – Jejum uma vez por ano, no mês do Ramadan.[28] Todos os muçulmanos acima de dez anos eram obrigados a abster-se de comer,  beber e de manter relações sexuais, do amanhecer ao anoitecer. Eram dispensados dessa prática os debilitados fisicamente, os doentes mentais, os ocupados em trabalhos pesados ou na guerra e os viajantes. Era um ato solene de arrependimento dos pecados e uma negação do eu[29] em favor de Deus.

e)      Hadj – Peregrinação a Meca, pelo menos uma vez na vida. A peregrinação, geralmente em grandes grupos, podia ser em qualquer época do ano, estando dispensados os que não eram livres e nem bons da cabeça, os que não possuíam os recursos financeiros necessários, os abaixo de certa idade e as mulheres que não tinham um marido ou guardião para acompanhá-las.

A jihad, guerra contra os que ameaçavam a comunidade, tanto os infiéis hostis de fora quanto os não muçulmanos de dentro que rompessem seu acordo de proteção, era em geral encarada como uma obrigação praticamente equivalente a um dos pilares. Após a grande expansão do Islã nos primeiros séculos e com o início do contra-ataque da Europa Ocidental, a jihad tendeu a ser encarada mais em termos de defesa que de expansão.[30]

 

Conclusão

À guisa de conclusão ficam algumas constatações que foram se delineando ao longo da pesquisa sobre o tema desses escritos.

Inicialmente, é a de que foi necessário um grande espírito acadêmico para que não ocorresse uma influência maior [31] da empatia com o objeto pesquisado sobre a isenção do pesquisador. Essa constatação está diretamente ligada à segunda, à da certeza de que urge uma aproximação maior dos cristãos com os integrantes das outras tradições religiosas, particularmente aqui, o islamismo. Tendo como pressuposto uma abertura às demais religiões, torna-se bem mais fácil encantar-se com as preciosidades nelas existentes.

Ao longo dessa pesquisa várias preciosidades foram sendo descobertas, possibilitando daí uma mudança naquela visão, por demais ocidental, [32] de um muçulmano armado até os dentes dirigindo um carro bomba! Evitando posicionamentos ingênuos e superficiais, que só vêem o lado positivo, algo não próprio de pesquisas de cunho científico, a tendência desse trabalho foi apenas conhecer um pouco mais, sem ‘pré-conceitos’.

Guerras já aconteceram e acontecem em demasia, sempre baseadas na crença de que o outro só tem imperfeições que precisam ser melhoradas, cabendo essa tarefa, naturalmente, somente ao outro, que é o imperfeito. Pensou-se e agiu-se dessa forma até a bem pouco tempo e ainda hoje pensa-se e age-se assim; num mundo globalizado, porém, em que os diferentes se tocam, urge continuar no caminho inverso, o do reconhecimento do outro.

 

Bibliografia

 

ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

 

BARTHOLO Jr., Roberto S. Mística e política no seguimento ao profeta do Islã. In.:
BINGEMER, Maria Clara L., _____________. Mística e política. São Paulo: Loyola,
1994.

 

HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: companhia das Letras,
1994.

 

NASR, Seyyed Hossein. O Profeta e a tradição profética. In.: BARTHOLO Jr., Roberto S.,
CAMPOS, Arminda. Islã – O credo é a conduta. Rio de Janeiro: ISER/Imago, 1990.

 

SCHIMMEL, Annemarie. Maomé. In.: BRUNNER-TRAUT, Emma (Org.). Os  fundadores 
das grandes religiões
. Petrópolis: Vozes, 1999. p. 133-154.

 

SCHUON, Frithjof. Compreender o Islão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989.



[1] Filósofo e Historiador, Mestre e doutorando em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Contato: jm-silva@bol.com.br

[2] Entender mesmo uma religião, qualquer que seja, somente estando nela!

[3] Basicamente Europa e Ásia.

[4] Parece sintomático o fato de que essa discussão tenha chegado aos cristãos do Iraque, local da irrupção do islamismo. A total humanidade de Jesus seria também corroborada pelos muçulmanos, que veriam o iniciador do cristianismo ‘apenas’ como um grande profeta.

[5] Já antes de Cristo, em 334-333, com a conquista do Irã por Alexandre, o Grande, os valores gregos chegam ao oriente e vice-versa.

[6] Interessante notar aqui a base do posterior islamismo como religião de Estado.

[7] Vide nota 4.

[8] Importante centro de peregrinação e entroncamento de rotas de caravanas na Península Arábica.

[9] Algumas lendas relatam as muitas dificuldades que Muhammad teria tido por causa dessa honestidade, difícil de ser conjugada com o comércio.

[10] Esse primeiro casamento teria sido totalmente monogâmico, duradouro e estável, somente terminando com a morte de Khadija.

[11] Explicada com detalhes na parte seguinte deste trabalho.

[12] A palavra árabe hidjra, traduzida geralmente como ‘fuga’, receberia uma interpretação mais correta como ‘corte do nó’. Interessante notar que nó é algo enrolado e, quanto mais bem feito, mais difícil de ser desatado, cortado.

[13] Após a conquista de Meca em 630, contrariando as expectativas, Muhammad oferece perdão aos adversários derrotados.

[14] Inclusive com a mulher separada de seu filho adotivo. Na tradição muçulmana isso é permitido, pois adoção não se equipara ao legítimo parentesco por consangüinidade.

[15] O amparo, em muitos desses casos, era a motivação principal do casamento.

[16] Khalifa = “lugar-tenente”.

[17] Uswa hasana (Sura 33,21).

[18] Daí a crença na doutrina da ab-rogação segundo a qual o islamismo ab-roga as tradições anteriores, o cristianismo e o judaísmo.

[19] O próprio transmissor identificou-se como sendo Gabriel.

[20] Corão em árabe é Qu’ran e significa Recitação. Foi o primeiro livro escrito em Árabe.

[21] Essa mesma experiência os profetas hebreus chamavam de kaddosh (santidade), só que, ao contrário de Isaías e Jeremias, Muhammad não tinha o amparo de uma tradição estabelecida para sustentá-lo.

[22] O kahin, a quem as pessoas consultavam quando perdiam um de seus camelos, era supostamente possuído por um jinni, um dos espíritos da paisagem. Também os poetas se julgavam possuídos por seus jinnis pessoais que forçavam as palavras a saírem de suas bocas. Essa era a única forma de inspiração conhecida por Muhammad e a idéia de ter sido possuído por um jinni encheu-o de desespero que não quis mais viver. Isso porque ele desprezava completamente os kahins, considerando seus oráculos uma algaravia ininteligível.

[23] Ao contrário da Torá que, segundo a versão bíblica, teria sido revelada de uma vez a Moisés no Monte Sinai,

[24] Posição adotada por alguns místicos de sua época quando em estado alternativo de consciência.

[25] Muitos estudiosos vêem aqui uma contradição com a doutrina cristã da filiação divina, mas na verdade, a mensagem expressa, originalmente, um ataque aos variados objetos de adoração dos árabes.

[26] Khalifa = “lugar-tenente”. Importante observar que o califa não era um profeta. Apesar de líder da comunidade, não era um mensageiro de Deus.

[27] Nesse período começa a conquista da Palestina, Síria, Egito, Iraque e Pérsia. No espaço de alguns anos as fronteiras do Oriente Próximo haviam mudado.

[28] Mês em que o Corão foi revelado.

[29] Os místicos muçulmanos vão seguir muito essa linha da negação do eu em favor de Deus ou, no dizer dos próprios místicos, a necessidade de se morrer antes de morrer.

[30] Posteriormente o conceito mudou mais ainda, significando uma luta interna do muçulmano contra as forças do mal.

[31] Parte-se do pressuposto de que uma isenção total é impossível, mesmo ao espírito científico. Não caberia nesse espaço adentrar aquela velha discussão sobre a relação entre sujeito e objeto do conhecimento.

[32] E atualíssima devido aos autuais acontecimentos envolvendo os atentados aos EUA e ao conflito entre palestinos e israelenses!