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René Girard, um teórico do estudo da religião*

Antonio Lacerda PUC/SP.

Sílvio L. Sant’Anna PUC/SP.

INTRODUÇÃO

Girard, nascido em Avignon, França (25 de dezembro de 1923). Formou-se em Filosofia,(1941), conclui sua pós-graduação em História (1947) como arquivista paleógrafo, com tese “ vida privada de Avignon na segunda metade do século XIX”, na École Nationale des Chartes, Paris. Conseguirá seu PHD na Indiana University (1950), com a tese “A opinião americana sobre a França, 1940-1943”. Inicia aí, sua carreira universitária.

Na década de 60, organiza um colóquio internacional sobre “Linguagens da crítica e ciências do homem”, com a participação de diversos intelectuais, entre eles estavam Roland Barthes, Jacques Derrida, Lucien Goldmann, Jean Hyppolite, Jacques Lacan, Georges Poulet, Tzevetan Todorov, Jean-Pierre Vernant. Reunidos,  discutiram naquele momento a chamada Nova Crítica Literária e, também as novas tendências de pesquisa da história e filosofia. Atualmente Girard encontra-se aposentado, somente orientando alguns pesquisadores.

Como professor de literatura, antropólogo, crítico literário, desponta como um intelectual de uma estatura invejável e domínio amplo de toda a cultural ocidental. Com toda a certeza, seu pensamento renovou a antropologia, já que ao reorganizar nossos saberes, deixa-nos claro a idéia: o homem é um animal mimético.

Alguns comentadores identificam sua obra como essencialmente de conhecimento, uma vez que  pretende revelar uma verdade universal. Entretanto, em nosso entender, sua obra esta mais para um exercício de Alethéia, ou seja, um desvelamento constante das verdades erguidas no pensamento universal. Girard nos traz à luz a própria realidade e sua interpretação.

Enquanto observador atento da intelectualidade ocidental e de seus hábitos contemporâneos, inicia um dialogo com a literatura clássica e imortal e por meio das obras dos maiores romancistas europeus, irá encontrar o fio condutor, que o fará caminhar para além da encruzilhada do labirinto que é a modernidade – o desejo mimético.

Ao objetivar suas idéias, Girard cria um texto complexo para o leitor mais desavisado. Principalmente quando estabelece uma relação com os clássicos do pensamento ocidental por intermédio dos quais discute suas teorias, realimenta-as com suas próprias considerações, e por fim formula sua teoria original que versa sobre a realidade: o homem e a humanidade. Num segundo momento, o leitor se dá conta da dinâmica e do movimento do texto girardiano e de como se revela, ficamos surpresos e resistimos à provocação, motivada por diversos fatores: emocionais, ideológicos, teóricos e religiosos.

Talvez, por isso, os teólogos da libertação se sentiram tão atraídos pelo pensamento girardiano. Os dois pensamentos tem em comum a recusa às lógicas de exclusão, às ideologias antivida, à vitimação de seres humanos. (em 1990, Girard, esteve no Brasil, participando de um encontro internacional, com os teólogos da libertação, resultando em um livro).

Ao elaborar sua teoria, Girard parte de uma rica e vasta leitura de obras literárias, leitura de mitos e tragédias, da obra de Freud e dos textos bíblicos. Leu os evangelhos como uma obra antropológica, Freud a partir de Proust e Lévi-Strauss a partir de Sófocles.

Seu texto incomoda, provoca curiosidade, e leva o leitor a uma série de indagações, tamanha é a vastidão de seu pensamento, vencemos as resistências para conseguir assimilar e compreender seu pensamento, que engendra o movimento crítico contemporâneo. Desenvolve uma teoria do desejo, da religião e da cultura e, portanto, da história. Suas fontes intelectuais são muitas e, consequentemente, pulsam e habitam várias vezes, convergentes e divergentes, numa grande polifonia.

Girard, sintonizado com seu tempo, busca resposta para a crise estrutural da modernidade – a morte de Deus, o fim das ideologias, a morte do homem -, deixando ecoar as vozes de três grandes mestres do pensamento ocidental, Durkhein, que identificou na antropologia a identidade do social e do religioso; em Freud ( totem e Tabu), pela intuição da morte fundadora e por último em Nietzche , filósofo que ao elaborar uma noção de ressentimento, pode compreender o delírio e conseguiu separar o desejo do objeto.

Desenvolverá sua teoria sobre violência e a função do religioso, na qual dialogarão de forma original, mitos, tragédias clássicas, dos ritos e instituições sociais e culturais. É desse período sua principal obra: A Violência e o sagrado.

O NASCIMENTO DA CULTURA

A compreensão sobre como se deu a transição do homicídio para o ser humano - ou seja o surgimento da cultura - vem sendo objeto de indagação, desde os primórdios da experiência humana. As narrativas dos mitos, as especulações filosóficas e as afirmações categóricas da ciência, ao longo dos séculos tem oferecido ricas contribuições, mas que paulatinamente vão sendo demolidas por novas descobertas. No centro da teoria do desejo mimético (Girard), está a figura do bode expiatório como experiência fundante da cultura humana.

Entre vários estudiosos sobre a questão, gostaria de lembrar dois jusnaturalistas Rousseau e Hobbes, para estabelecer uma comparação com o que diz Girard. O autor de O Contrato Social, Rousseau, acreditava que no estado de natureza, a humanidade vivia em liberdade e harmonia. Dessa forma criou-se o conhecido mito do bom selvagem. O processo civilizatório teria quebrado essa harmonia original e para atenuar o conflito entre os homens, houve a necessidade de um pacto que gerou as instituições políticas. Thomas Hobbes, ao contrário de Rousseau, dizia que no estado de natureza havia uma violência generalizada entre os homens, porque a natureza humana é constituída de três elementos - a competitividade, a desconfiança e busca de glória – que na relação social explodem em violência. A saída para esse dilema é que cada um abdique de sua  liberdade em favor da ordem social e apenas um entre todos, seja eleito como o concentrador da liberdade de todos e aquele que tem o monopólio da violência. É criada a figura de Leviatã um deus de carne e osso, que não esta investido do poder sagrado, mas do poder que a humanidade o investiu. Um Estado político forte.

Enquanto que para os jusnaturalistas, a transição tem como mediação a esfera do político, sem entrarmos na questão do caráter autoritário em Hobbes e democrático em Rousseau, para Girard o desprendimento do homem do estagio natural, só foi possível pela mediação do religioso, ainda que no sentido mais elementar do termo. A teoria girardiana desmistifica a noção do bom selvagem, por ser uma idealização do ser humano e não uma teoria verificável. Girard não esta preocupado com a boa ou má índole dos primitivos, mas sim o que os colocava em marcha; não só para sobreviverem às adversidades  da própria  existência e mais do que isso, como se chegou ao processo cultural verificável ao longo de nossa História. Não é que a humanidade e vale dizer também os outros animais sejam violentos por natureza, ocorre que o ser humano em particular tem um processo de desenvolvimento de sua individualidade a partir da imitação dos outros de sua espécie e do desejo do desejo destes, isto é mímesis. No afã de realizar esse desejo assume uma postura de auto-afirmação, que é eminentemente agressiva e tende a violar o outro que de modelo passa a ser rival. Segundo Girard, esse é um fenômeno generalizado e tende a ser resolvido quando a violência reciproca, se canaliza para um único foco central e elege entre todos uma vítima ocasional, que se converte no objeto do ódio de todos e passa a ser por reconhecimento unanime o bode expiatório. Nesse sentido há algumas similitudes com o que propôs Hobbes em seu Leviatã. Ambos partem da violência recíproca e generalizada, há um momento de trégua estratégica que resultará em Girard na canalização da violência para um único objeto a vítima que é aniquilada, ao passo que em Hobbes a violência é reprimida com o surgimento de Leviatã que é colocado por todos voluntariamente num grau de supremacia. Em ambos o resultado é a paz, mas na sociedade hobbesiana, essa paz é garantida porque cada pessoa sente a espada de Leviatã sobre sua cabeça, ao passo que no mecanismo vitimário, a paz é momentânea, ou seja enquanto se lembre do sacrifício realizado em favor de todos, mas ele pode ser reproduzido infinitamente.

Quando se afirma que para Girard, o processo de hominização passa pela esfera do sagrado e que o cerne dessa experiência está no mecanismo vitimário, no oferecimento sacrificial de uma vida, é necessário retomar esses conceitos para entender suas etapas, ainda que de forma sucinta.

Na busca da realização, o ser humano busca no outro a distinção de sua individualidade e ao mesmo tempo percebe o que ele quer para si e o que só o outro tem. Esse processo denominado desejo mimético ao mesmo tempo que enaltece as qualidades alheias pelos valores que só ele tem e o faz modelo ideal digno de ser imitado, desenvolve-se no imitador uma violência avassaladora capaz de destruir seu modelo que agora passa a ser rival, pois ambos desejam o mesmo objeto. Há uma reciprocidade de sentimentos e intenções entre ambos, ao mesmo tempo que isso se discrimina entre todos, provocando a violência generalizada que se realmente numa dinâmica de vinganças infindáveis que levam a um estado de crise mimética,  que só será superado quando a fúria de todos se voltarem para um ponto convergente e a violência recíproca, se converter em violência unanime de todos contra uma única vítima que assume todos os males da comunidade e dessa forma é humilhada e esmagada por todos. Esse espetáculo violento em relação a vítima esvazia o espírito beligerante dos participantes, criando entre eles uma confraternização que só foi possível com o derramamento do sangue de uma vítima ocasional e não raro inocente denominada bode expiatório. Esse mecanismo vitimário, é denominado o interdito, pois a vítima inocente ou não, quando assumiu a função que lhe atribuiu a comunidade para ser o bode expiatório tornou-se maldita, mas imediatamente após ser sacrificada ou seja passar pelo rito foi reabilitada pois salvou a comunidade e transformou-se num mito do qual todos celebram a memória. A partir do mecanismo vitimário, se inaugura uma nova mímese – interdito, rito e mito são os alicerces simultaneamente, segundo a teoria girardiana da Religião, da Cultura e da Ordem Social.

Do veneno da violência humana generalizada é extraído o soro salvador do sacrifício que reconhece no sagrado o direito da vida e da morte; da paz sacrificial contra a guerra generalizada. O divino estabelece a partir da lógica sanguinária do humano a possibilidade da continuidade da vida social e a vítima aniquilada pelas iniquidades humanas é reapresentada como herói soteriológico que inaugura a experiência humana da transmortalidade.

As três históricas críticas à Religião feitas pelos mestres da suspeita Marx, Nietzsche e Freud e suas conseqüentes soluções que apesar de polemicas gozavam até recentemente de uma certa racionalidade científica, ante a teoria girardiana ficaram desguarnecidas de suporte teórico que lhes credencie como tal. Marx, não formulou propriamente uma crítica a Religião, mas apropriou-se da critica que Feuerbach  in A Essência do Cristianismo fez à Religião. Para eles a Religião é um instrumento de alienação da humanidade é ópio. Para Marx, o ser humano se fez pelo trabalho – Homo faber e os conflitos se davam em função do antagonismo de classes e que isso deveria ser acirrado até que os oprimidos tomassem o poder e extinguissem as classes para por fim dissolverem o Estado e implementarem a sociedade comunista livre das contradições que seria um paraíso telúrico. Nietzsche, mais demolidor, decretou a morte de Deus e dizia que o cristianismo atentava contra o instinto de sobrevivência de uma vida forte. O ser humano, segundo ele,  deveria se superar sempre guiado pela vontade de poder. Freud, a partir de sua analise em Totem e Tabu, afirma que a Religião nasce do remorso dos filhos que mataram o pai autoritário para possuírem a mãe, mas que não conseguem se libertar da figura do pai que passa a ser cultuado como divindade mantendo os homens num relação de dependência.

CONCLUSÃO

Embora válidas críticas para as experiências religiosa de qualquer tempo, e em particular para a conjuntura que seu autores formularam, o fenômeno religioso não se esgota até onde alcança essas críticas porque antes do ser humano ser Homo sapiens, Homo faber, Homo políticus é essencialmente Homo religiosus e isso se verifica na simples observação da humanidade e mais profundamente na teoria girardiana do desejo mimético, que abarca os desejos sexual, de poder,  de Ter e tantos outros desejos dos seres humanos que em última instância é o desejo de ser o que o outro é. A irrupção do sagrado na experiência humana dos primórdios é ao contrário de todas os estudos sobre a Religião até Girard é te-la considerado como experiência intimista alienatória ou no plano social politicamente engajada e justificadora do status quo. Não estando preocupado em caracterizar a irrupção do sagrado como  manifestação panteísta, monoteísta ou politeísta descobriu sua teoria a partir dos textos mitológicos de varias tradições religiosas e depois de feito a exegese cos mesmos , comparou-os entre si e descobriu o nexo causal entre eles o que seria o mistério do nosso mundo: a mímese e o mecanismo vitimário como gênese de todas culturas humanas.

A RELIGIÃO E O PROCESSO DE HOMINIZAÇÃO

SEGUNDO OS MESTRES DA SUSPEITA

 

 

RELIGIÃO

PROCESSO DE HOMINIZAÇÃO

MARX

Alienação

Homo Faber

NIETZCHE

Atenta contra o instinto de sobrevivência

Vontade de Potência

FREUD

Remorso Infantil

Homem Psicanalizado

GIRARD

Mímesis/ mecanismo vitimário

Homo religiosus

SURGIMENTO DA CULTURA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Bibliografia

ASSMANN, HUGO(org.) René Girard com teólogos da libertação – um diálogo sobre ídolos e sacrifícios.  Petrópolis: Editora Vozes e Piracicaba: Editora Unimep, 1991.

GIRARD, RENÉ. A violência e o sagrado, São Paulo: Paz e Terra, 1998

_____________El Chivo expiatorio. Barcelona: Editorial Anagrama, 1986.

_____________El misterio de nuestro mundo – chaves para una interpretación antropológica. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1982.

GORGULHO, GILBERTO. O sagrado: ilusão e imaginário. in Interfaces do Sagrado – em véspera do milênio. São Paulo; Olho dágua e CRE PUC/SP, 1996.