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Visão da Religião em Os Lusíadas de Camões

Fernando de Moraes Gebra*
Unesp

Proponho analisar a concepção da religião nos diversos narradores presentes na epopéia Os Lusíadas de Camões. Como sabemos, esta obra pertence ao século XVI, época do Renascimento, das Grandes Navegações, das crises do catolicismo devido aos movimentos religiosos reformistas, e do retomar do pensamento filosófico clássico greco-romano. Cada personagem estudada no presente trabalho, bem como o narrador, revelará seu ponto de vista em relação à temática religiosa. Todos os pontos de vista apontam para uma direção: a intolerância e preconceito religiosos. Tentarei mostrar esta temática através da proposta de Luiz Roncari e das notas de Francisco da Silveira Bueno sobre Os Lusíadas da editora Ediouro.

Luiz Roncari afirma que “geralmente as personagens positivas, como os heróis, expressam o que pensa o autor, e as negativas refletem aquilo que ele quer combater”.(RONCARI p. 89). Em Os Lusíadas, o Velho do Restelo, Paulo da Gama, Vasco da Gama e Tétis são caracterizados positivamente, isto é, o que eles afirmam são pontos de vista camonianos, caracterizados como católicos e preconceituosos em relação às outras religiões.

Em várias estrofes do poema percebemos a ideologia católica e teocêntrica da voz camoniana. Além do narrador, o autor implícito, para revelar suas concepções religiosas,  utilizou-se de outras vozes tais como a do Velho do Restelo (Canto IV, estrofes 94 a 104), a de Paulo da Gama (Canto VIII, estrofe 11) e a  de Tétis (Canto X, estrofes 80 a 83).

Estas concepções religiosas já são vistas na proposição do poema (Canto I, 1-3), em que já se nota o ideal católico cruzadístico de expansão da Fé e do Império. Na estrofe 2, o narrador, ao utilizar a expressão “ terras viciosas”  refere-se negativamente às terras não-católicas que precisariam, na ideologia camoniana, ser cristianizadas.

2-E também as memórias gloriosas

Daqueles Reis que foram dilatando

A Fé, o Império e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando,

E aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da Morte libertando:

Cantando espalharei por toda a parte,

Se a tanto me permitir o engenho e a arte.

* Os grifos são nossos.

No episódio do Velho do Restelo (Canto IV, 94-104), além de haver uma voz que vitupera os desejos antropocêntricos da expansão marítima e que ressalta os valores medievais teocêntricos de condenação da cobiça, da vaidade e da ganância, essa voz também está impregnada de valores católicos contra as religiões árabes, o que vemos nas estrofes 100 a 102.

100-Não tens junto contigo o ismaelita,

Com quem sempre terás guerras sobejas?

Não segue ele do Arábio a lei maldita,

Se tu pela de Cristo só pelejas?

Não tem cidades mil, terra infinita,

Se terras e riqueza mais desejas?

Não é ele por armas esforçado,

Se queres por vitórias ser louvado?

101-Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e vá deitando a longe;

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a Fama te exalte e te lisonje

Chamando-te senhor, com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e Etiópia?

Na estrofe 100, ao dizer “Não segue ele do Arábio a lei maldita”, o velho do Restelo  refere-se à religião islâmica, vista como negativa na sua concepção, explicada no adjetivo “maldita”. Na estrofe 101, em “Deixar criar às portas o inimigo”, inimigo se refere aos árabes. Nesta estrofe há a crítica ao expansionismo marítimo português, que buscava preocupações longe de sua pátria, abandonando a luta contra os mouros. Na estrofe seguinte, no verso “Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!”, há a referência à religião cristã, vista como justa e positiva.

No início do Canto VII (estrofes 2 a 15), o narrador louva os portugueses que, por não negarem a fé católica, chegaram a várias partes do mundo, o que vemos claramente nas estrofes 2, 3, 14 e 15.

2-A vós, geração de Luso, digo,

Que tão pequena parte sois no mundo,

Não digo inda no mundo, mas no amigo

Curral de quem governa o Céu rotundo;

Vós, a quem não somente algum perigo

Estorva conquistar o povo imundo,

Mas nem cobiça ou pouca obediência

De madre que nos céus está em essência;

3-Vós, portugueses, poucos quanto fortes,

Que o fraco poder vosso não pesais;

Vós, que, à custa de vossas várias mortes,

A lei da vida eterna dilatais:

Assi do céu deitadas são as sortes

Que vós, por muito poucos que sejais,

Muito façais na Santa Cristandade,

Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

Em “Estorva conquistar o povo imundo” (estrofe 2, verso 6), este povo são os árabes, mais uma vez visto negativamente. Em “Mas nem cobiça ou pouca obediência/ Da madre que nos céus está em essência” (estrofe 2, verso 8), há, de acordo com Francisco da Silveira Bueno, referência à Igreja Católica. Nos dois últimos versos da estrofe 3, a expressão “Santa Cristandade”  refere-se ao catolicismo. (BUENO,  p. 239)

Por outro lado, o narrador vitupera os povos que se rebelaram contra a Igreja Católica. Na estrofe 4, os alemães são criticados pela fundação do luteranismo, o que se vê em “Novo pastor e nova seita inventa”  (verso 4). Para a voz poética, isto representa um “cego error” (verso 6).

4-Vede’los alemães, soberbo gado,

Que por tão largos campos se apascenta;

Do sucessor de Pedro rebelado,

Novo pastor e nova seita inventa.

Vede’lo em feias guerras ocupado,

Que inda co’o cego error se não contenta,

Não contra o superbíssimo otomano,

Mas por sair do jugo soberano.

Nas estrofes 5 e 6, Henrique VIII é criticado pela fundação do anglicanismo e é chamado de “falso rei” (verso 1) que “ não guarda a santa lei” ( verso 3). Francisco I, rei da França é chamado  de “Galo indigno” (verso 5), por ter se aliado com Solimão II, rei dos turcos contra Carlos V, imperador da Alemanha, Áustria e Espanha e defensor dos católicos.

6-Guarda-lhe, por entanto, um falso rei

A cidade Hierosólima terrestre,

Enquanto ele não guarda a santa lei

Da cidade Hierosólima celeste.

Por ti, Galo indigno, que direi?

Que o nome “cristianíssimo” quiseste,

Não para defendê-lo nem guardá-lo,

Mas para ser contra ele e derrubá-lo!

Para os muçulmanos dirige o narrador os epítetos mais ofensivos como “cães” no verso 6 da estrofe 9. Segundo Francisco da Silveira Bueno, “Camões é um perfeito representante do ódio do Ocidente contra o Oriente, ódio de religião e de raça” (BUENO,  p. 241). 

Não só no Canto VII vemos a intolerância religiosa do narrador, mas em diversos momentos do poema, tais como: Canto III, estrofes 52, 75, 95 e 112. Nas estrofes 52 e 75 temos as Guerras de Reconquista, as quais foram vencidas pelos portugueses.

75-Por que levasse àvante seu desejo,

Ao forte filho manda, o lasso velho,

Que às terras se passasse de Alentejo,

Com gente e co’o belígero aparelho.

Sancho, de esforço e de ânimo sobejo,

Àvante passa e faz correr vermelho

O rio que Sevilha vai regando

Co’o sangue mouro, bárbaro e nefando.

Nas duas estrofes citadas, o narrador utiliza termos pejorativos para descrever os mouros tais como “bárbaro” e “nefando”. Pelo Novo Dicionário Aurélio, encontramos nefando como indigno de se nomear, abominável, execrável, execrando, aborrecível. No verso 4 da estrofe 95, ao dizer “O mouro, mal querido já de Marte”, o narrador coloca-o num plano de inferioridade, pois nos dá a entender que até as entidades mitológicas detestam a raça mourisca. No primeiro verso da estrofe 112, os mouros são chamados de pérfidos, que, de acordo com o dicionário citado, significa traidor, desleal ,infiel, enganador, traiçoeiro. Com isso concluímos que os mouros constituem  personagens extremamente negativas na epopéia camoniana.

Os católicos portugueses tinham como missão conquistar novas terras para a ampliação de seu Império, o que vemos na estrofe 76 do Canto IV, na qual o rei D.Manuel organiza as expedições para a Índia “A buscar novos climas, novos ares” (verso 8). Para isso, era necessário impor aos povos a serem colonizados  a fé do colonizador. Em “Onde vêm semear de Cristo a lei/ E dar novo costume e novo rei” (Canto VII, estrofe 15, versos 7 e 8), percebe-se claramente a intenção dos navegantes recém-chegados a Calecute,  de pregar novos costumes e a religião católica para efetivar o domínio territorial.

No Canto VIII, na estrofe 11, ao descrever D.Afonso, Paulo da Gama diz “Este é aquele zeloso a quem Deus ama,/Com cujo braço o mouro imigo doma”, o que nos dá a entender que Deus seja a favor dos católicos portugueses, pois os ama, e seja contra os mouros, pois há a utilização do adjetivo “imigos”. Temos aí mais um exemplo da crença na predileção das entidades cristãs e pagãs pelos católicos, forte ideologia religiosa de Camões.

No Canto VII, ao chegar a Calecute, os portugueses encontram um árabe de nome Monçaide que fala espanhol e que os acolhe. No Canto IX, na estrofe 15 vemos a conversão do Monçaide ao cristianismo (“Quer no livro de Cristo que se escreva”), abandonando, assim, a religião árabe, considerada “escura treva” (verso 6).

15-Isto tudo lhe houvera a diligência

De Monçaide fiel, que também leva,

Que, inspirado de angélica influência,

Quer no livro de Cristo que se escreva.

O ditoso africano, que a clemência

Divina assim tirou da escura treva.

E tão longe da pátria achou maneira

Para subir à pátria verdadeira!

De acordo com as notas de Francisco da Silveira Bueno, “Quer no livro de Cristo que se escreva” equivale dizer que o Monçaide “quer que seja numerado entre os catecúmenos, entre os que aprendem a doutrina cristã pelo batismo.” (BUENO, p. 266).  A este despertar para a fé católica do Monçaide é atribuída causa divina de tê-lo tirado da “escura treva” e tê-lo guiado à “pátria verdadeira”, isto é, o céu, na interpretação do autor citado.

Como em toda epopéia, há o elemento maravilhoso (intervenção de seres superiores). Em Os Lusíadas, há o maravilhoso cristão (Canto II, estrofes 30 e 31; Canto V, estrofe 60; Canto VI, estrofes 80 a 83) e o maravilhoso pagão, intervenções de Baco e Vênus ao longo do poema como vemos no Canto VI, nas estrofes 6 e 7, nas quais o deus do vinho desce para o mar a fim de pedir a Netuno que uma armadilha seja feita contra os portugueses. No mesmo canto, Vênus ajuda os portugueses a escaparem da armadilha nas estrofes 85 a 87.

Nossa análise dará ênfase na mescla das entidades mitológicas com o Deus cristão. No Canto II, Vênus desvia as naus das armadilhas dos mouros, o que vemos na estrofe 22.

22-Põe-se a Deusa com outras em direito

Da proa capitania, e ali  fechando

O caminho da barra, estão de jeito

Que em vão assopra o vento, a vela inchando.

Põe no madeiro duro o brando peito,

Para detrás a forte nau forçando;

Outras em derredor levando-a estavam

E da barra inimiga a desviaram.

Como exemplo do maravilhoso cristão, escolhi a estrofe 30 do mesmo canto, que segue abaixo.

Oh! Milagre claríssimo e evidente!

Oh! Descoberto engano inopinado,

Oh! Pérfida, inimiga e falsa gente!

? Quem poderá do mal aparelhado

Livrar-se sem perigo, sabiamente,

Se lá de cima a Guarda Soberana

Não acudir a fraca força humana?

Nesta estrofe, a voz é de Vasco da Gama, o qual louva a Guarda Soberana como responsável de livrá-lo da armadilha dos mouros. Mais uma vez recorro a Francisco da Silveira Bueno, que explica “Guarda Soberana” como “A Divina Providência" como aparece na estrofe imediata. Camões e Gama, sendo católicos, expressam-se com termos de sua religião. "Mas como ficou narrado nas estrofes  anteriores, todo este milagre da imobilidade das naus, foi obra de Dione (Vênus) e das Nereidas. É este contínuo mesclar do maravilhoso cristão com o pagão que a muitos impressiona em “Os Lusíadas”. Daqui não decorre que o Poeta aceitasse tais fábulas gentias: obedecia, apenas, aos preceitos da escola clássica que exigia, nas epopéias, a velha mitologia greco-romana.(BUENO,  p. 159).

No Canto X, nas estrofes 80 a 83, Tétis invoca o verdadeiro Deus na visão camoniana, o que vemos nos dois últimos versos da estrofe 80 (“É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende, / Que a tanto o engenho humano não se estende”) e afirma que os deuses da mitologia pagã só existem como uso meramente literário, o que vemos na estrofe 82.

82-Aqui, só verdadeiros, gloriosos

Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,

Júpiter, Juno, fomos fabulosos,

Fingidos de mortal e cego engano.

Só para fazer versos deleitosos

Servimos; e , se mais o trato humano

Nos pode dar, é só que o nome nosso

Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

Podemos concluir que as vozes presentes em Os Lusíadas, por serem de personagens positivas, representam a ideologia camoniana, caracterizada como católica e preconceituosa em relação às demais religiões, vistas estas de forma negativa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CAMÕES, Luis de.  Os Lusíadas.  (Edição  crítica  de  Francisco  da  Silveira  Bueno).  Rio  de  Janeiro: Ediouro, s/d. (Prestígio).

RONCARI, Luiz.  Literatura  Brasileira:  dos  primeiros  cronistas  aos  últimos  românticos. São Paulo: Edusp, 1995. (Didática, 2). p.89.



* Fernando de Moraes Gebra é aluno do segundo ano de Letras da Unesp de Assis.