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RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS

 

CANDOMBLÉ CATÓLICO E O POVOÁ

Ronaldo de Salles Senna

 

Candomblé católico – muito usado em Bonfim de Feira, ao ponto de ser, nesta área, o de maior número de casas e prestígio de líderes – é um tipo de manifestação religiosa onde os agentes do sagrado não cumprem obrigações vinculadas aos orixás. São candomblés de caboclo puros, onde o caboclo incorporado executa os trabalhos rituais – de festa e de cura – respaldado por obrigações e costumes contraídos com os santos católicos.

O povoá tem com o candomblé católico determinadas identidades, ainda que por coincidência, como, por exemplo, a ausência da feitura do ori. Os seus agentes do sagrado não são indiciados por outro agente, dentro da conhecida teia de escolaridade tecida entre mestres e aprendizes. Existem estas duas categorias no candomblé católico, embora isto não indique ou constitua uma construção de hierarquia. No povoá, nem isso. Neste, o líder, que não é zelador, nem Ogan ou aprendiz de outra casa (não em orixás, ajuntós ou caboclos a zelar, diferente do candomblé católico onde, embora não existam orixás, o zelador se incumbe de caboclos e santos), não se vincula, em sua biografia ou comportamento atuais, a algum mestre. Teve a sua missão determinada por sonhos ou visões. Não exerce o processo da cura. Os seus rituais de festa, embora baseados nos sambas de caboclo não possuem os instrumentais rítmicos daquele (não tem atabaque ou ganzá. Todo o som emana de instrumentos de cordas e sanfonas) nem os seus seguidores incorporam encantados, com exceção do líder, que incorpora um só encantado, depois de algum tempo de iniciado o povoá. É uma festa de dança religiosa que se processa após as ladainhas endereçadas ao santo do dia e ao santo protetor da casa, onde mais uma vez vai se diferir do candomblé católico, onde os cantos são, algumas vezes, endereçados a caboclos.

Em resumo, o candomblé católico e o povoá se excluem, dado a que os seus adeptos e freqüentadores não se encontram (os primeiros centralizam-se em Bonfim de Feira, os segundos em alguns bairros afastados da cidade de Feira de Santana). Como nunca houve o encontro entre os dois não podemos dizer se haveria ou não uma mútua aceitação ou alguma tolerância unilateral se, por acaso, isto acontecesse.

Os candomblés de nação e de aldeia excluem o povoá mas não, inteiramente pelo menos, o católico. Isto relaciona-se mais ao de base angolana pelo fato de ser aquele que mais se liga em caboclos.

Encontra-se, com freqüência, mais nos distritos que na sede do município, pessoas que trabalham como encantadomesclando santos católicos, caboclos e, as vezes, orixás mas sem maiores preocupações tipológicas dos seus referenciais míticos. São muito ligados aos cultos das almas, mas diferente das outras duas encantarias aqui destacadas, não possuem rituais de festas com a face das suas casas. São mais mágicos que sacerdotes. Possuem obrigações identificadas por acontecimentos ou sonhos, mas não os admitem como mestres ou aprendizes e sim como uma missão autônoma. Não foi possível inclui-los em uma religiosidade determinada, desde quando não a nenhuma expectativa de papéis já estudados. São curadores rurais no meio urbano ou semi-urbano, sem possuírem uma rigidez ritualística, embora contem com numerosa clientela. São os agentes de candomblé sem feitura de cabeça.

 

Falando mais sobre eles:

 

1.      O Candomblé Católico

 

Essa encantaria foi colhida na Fazenda Santa Bárbara, no distrito de Bonfim de Feira, da cidade de Feira de Santana. Organizada e capitaneada por Sr. João do Genipapo, proprietário do sítio, tem como data maior a festa para Nossa Senhora da Conceição, nessa sede, que é reconhecida como o Terreiro Jesus de Santa Bárbara.

O velho João considera-se espírita porque recebe desígnios do espírito santo para esclarecer, aos zeladores de santo e seus seguidores que, a seu modo, servem a Jesus Cristo, que esta é uma forma de amar a Deus, sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo.

Não se considera pai-de-santo ou zelador, identifica-se como mentor espiritual enviado por Santa Bárbara e Nossa Senhora da Conceição para usar suas forças e energias sagradas a favor dos homens. Esses fenômenos afirma, podem ser reconhecidos através de curas miraculosas, conversão ao caminho da caridade, da busca da paz, da procura da saúde e da prosperidade no seio das famílias. Tem certeza que, a ele, a imaculada Conceição resolveu confiar a vidência, a cura, a fé e profetização.

Senhor João não recebe a Santa, que é a guia da seita (é esta a auto-referência), incorpora a energia que ela traz e redistribui entre santos, orixás, encantados e caboclos. Essa energia é destacadamente priorizada para o caboclo Tupinanbá, Rei da Floresta, simbolicamente correspondido com São Jorge. O médium dessa manifestação vem paramentado com tanga e penacho, segundo a imagem que formam do índio brasileiro. Tem uma coroa na cabeça, com destaque de uma estrela de Davi. Segura em uma das mãos um cálice e, na outra, um pequeno sino, arco e flechas em miniatura. Tupinambá e sempre a primeira entidade a manifestar-se no terreiro, a baixar. Sem uma ordenação rígida, podem seguir, de forma simultânea ou não, nanã, iyamanja ou outros orixás caboclizados pelo processo de formação da encantaria.

Em toda essa construção mítico-ritual, a trascendência não se mostra incluindo excludências, dicotomias ou ambivalências absolutas. Santos, orixás e caboclos comportam-se em diferentes níveis, mas sempre em arranjos de complementariedades. Nunca estão separados. São peças da mesma engrenagem e faces da mesma moeda. A rigor, não é sequer uma correspondência simbólica, como nos candomblés que seguem os modelos Ketu ou Gegê-Nagôs.

No candomblé católico de Bonfim de Feira os santos são os guias dos orixás. Cada um dos primeiros orienta e determina os papéis dos segundos singularmente identificados. Seguindo uma certa ordenação, os orixás são os guias dos caboclos mas, nesse caso, não acontece uma assimetria imprescindível. Os guias, em foco, podem ter os seus papéis episodicamente modificados ou mesmo invertidos. No caso aqui tratado, Senhor João afirma que Cristo, Santa Bárbara e Tupinambá comandam a casa. Iansã que guia Tupinambá, fica, muitas vezes, em segundo plano. Deve-se isso a duplicidade de Tupinambá, que lhe desdobra a força. Explica-se: Tupinambá e outro caboclo, gentil celestial, mesclam-se na mesma energia, emanava de iansã, que tem o poder disso executar, posto que recebe a energia de Santa Bárbara, que é a mãe de todos os caboclos. Afinal de contas, santos, orixá e caboclos são necessários para um contato maior com a divindade. É crença geral na confraria que quem apenas lê a Bíblia, não ouve toda a palavra de Deus – apenas um pouco, embora extremamente necessário.

Depois de Santa Bárbara, Tupinambá e seu duplo-étereo (esta identificação kardecista é muito usada para identificar gentil celestial), vem aqueles que só descem com a ordem deles, já que são os donos da casa. Os outros, em segundo plano, não têm que esperar, no entanto, a baixada dos primeiros, podem, apenas, receber o consentimento, já que o terreiro pode ser aberto por um encantado dos astros, como Jericó; das águas, como Iemanjá ou da mata, como Oxossi.

Todo esse comportamento fica na dependência do santo que está regendo o dia e que identifica-se através de visões. A vidência de seu João manifesta-se quando ele olha para o céu, vê o santo e ouve vozes. Nesse momento fica identificado também o caboclo escolhido pelo santo e percebe-se o tipo de energia que está imantando o ambiente. Esta energia, a princípio estonteante e confusa, fica clara e coerente quando, após identificado, o agente do sagrado fala o nome do santo, a do orixá ou o apelido do caboclo.

Nestas visões nunca perde a consciência e esta vidência, afirma, é uma missão que vem de berço. Surgem, ocasionalmente, dúvidas sobre o real sentido da mensagem. O esclarecimento sempre se dá quando se pergunta a Iansã, através de orações, e ela responde de forma genérica ou detalhada, a depender do juízo que faça sobre a questão. Muitas vezes esta dúvida não existe. Por exemplo, saber que a morte está próxima: vê um caixão passar frente aos seus olhos.

Muita importância também se dá ao batizado, em parte porque o do guia é uma réplica do católico. Os fiéis afirmam que para haver o batismo tem que haver grande concentração, ou seja, rezar muito, ir a missa várias vezes seguidas, abster-se de bebidas, festas e sexo, além de jejuar, praticar penitências e cumprir promessa.

O batismo do guia sempre se dá nos sábados, domingos e terças-feiras de carnaval, sendo a terça dedicada aos guias mais fortes, possuidores de maior concentração. A quarta-feira de cinzas é dedicada aos rituais católicos oficiais.

Como o comum dos candomblés, o católico respeito a quaresma. Fecha-se o terreiro após o carnaval abrindo somente a partir de sábado de aleluia.

A abertura da festa é de um sincretismo estonteante. A casa núcleo do festar fica na parte mais alta de uma colina. Dela sai, para contornar uma lagoa, uma procissão levando a imagem da santa, em ritmo de carnaval. A interpretação imediata entre o sagrado e o profano atinge o seu ponto mais alto.

Chegando-se à casa, começa a lavagem do terreiro, onde vai acontecer a função, com acompanhamento rítmico diferenciado, tendo por sustentação o som dos atabaques que garantem o samba de caboclo. Nesse momento, existe sempre uma senhora idosa coordenando a participação das crianças.

Simultaneamente, em volta do terreiro, na frente, no pátio da fazenda vêem-se camelôs de bijuterias, perfumes de alfazema, sabonetes, esmalte de unha, barraquinhas de comida, tabuleiros de cocada, bolinhos de diversos tipos e outras guloseimas, carrinhos de pipoca e um bar permanente que fica aberto durante toda a festa. Acima do bar no coreto ornado de bandeirolas com as cores da bandeira brasileira, a própria bandeira nacional, a do império, da cidade de Feira de Santana, além de outras criadas pela comunidade. Uma certa aparência cívica envolve todo o sítio. As bandeirolas que cobrem a praça e o salão da casa cerimonial são sempre verdes e amarelas. Fitinhas com essas cores pendem das laçadas.

Fazendo contraponto com este referencial, símbolos natalinos como velas, sinos, bolas de aljofa, pequenas árvores de natal com algodão e sisal imitando neve e outros adereços como bonecos de papai noel presos na capela, que fica ao lado da casa, outro no pátio, como também em frente da casa. Vale dizer que esses elementos estão presentes no terreiro seja qual for a época do ano, assim como a presença mariológica que é sempre muito forte. Manifesta-se, geralmente, em forma de Nossa Senhora da Conceição, de Fátima, das Dores e da Consolação, que estão sempre presentes, em suas imagens. Senhora Santana é, também, muito cultuada em seu dia. Guia Nanâ. A festa católica dessa santa padroeira, em Feira de Santana, exerce uma visível atração no candomblé.

Toda esta parafernália compõe uma forma singular do catolicismo brasileiro. A decoração cívica serve de sustentáculo para a moldura do caboclo, a natalina para a representação dos santos. Ambas contribuem para a construção simbólica dos orixá abrasileirados. São vistos no quarto dos santos, nos diversos prequenos altares católicos, nos presépios e na procissão – carnaval.

Uma afirmação constante da catolicidade ambiente e que o candomblé católico não recebe exu, embora os seus membros sintam a forte influência da umbanda. Esse orixá-mensageiro é visto como o diabo, todavia não tem o mal escoimado da sua natureza como a concórdia umbanda-quimbanda o faz no seu amplo processo de ressignificações, ou seja, enquanto a quimbanda, contida na umbanda, redezenha, com muita maestria, este papel; a religiosidade em questão não introjeta essa mensagem.

Não receber Exu em casa significa, apenas, não cultuá-lo, pode-se, no entanto, exorcisá-lo, fenômeno que comumente acontece nessa manifestação e assemelhadas. É interessante que este exorcismo se faz com a ajuda, quase que imprescindível, de caboclos, onde se destacam tupinambá, tupi taquara e boiadeiro. Esta visão do caboclo, como acólito dos santos, acompanha toda a panorâmica do imaginário. Entretanto, a de Exu, como escravo dos orixás, discurso corrente nos candomblés de caboclo, não tem ali a sua aceitação. É um processo constante de elementos de cultura ressignifcados.

Seu João do Jenipapo, líder máximo do candomblé católico de Bonfim de Feira, teatraliza a sua aparição com grande preocupação cênica. Começa o ritual com o silenciar do samba. Em seguida ele desce as escadas da casa empunhando a bandeira de São Jorge, acompanhado de alguns filhos de terreiro que trazem as de Santa Bárbara. Aproxima-se da roda de caboclo e pronuncia sua mensagem dirigida a todos os presentes, fiéis ou não. Veste uma indumentária que imita os paramentos de um bispo ou padre.

A música logo o acompanha. A dança também recomeça, agora na roda de caboclo. Seu João, agora com a roupa de Santa Bárbara, começa a levagem andando por todo o terreiro-fazenda e rodeando a aguada. Interessante, é que tanto a palavra lavagem como levagem, são usadas pelos participantes ou curiosos, embora não esteja lavando ou levando nada, a não ser elementos da procissão. Essas palavras, contudo, são largamente empregadas em grande parte do sertão, geralmente com uma ritualística das festas do divino espírito santo com as suas lavagens das escadarias dos adros das igrejas e as levadas do mastro (que dará sustentação a bandeira) ou da lenha (quando uma ou mais fogueiras compõem o cenário ritual.

A procissão volta à sede da fazenda, recebida por saudações ou estouro de foguetes. A coordenação da festa pede que as crianças se retirem porque chegou a hora das baianas. São senhoras vestidas de baianas de acarajé ou imitando filhas de santo, fantasias estilizadas pelo imaginário baiano mas que se projetam em outras manifestações culturais como escolas de samba e afoxés.

Logo após a chegada da procissão inicia-se a novena de Santa Bárbara cujo cânticos irropem no samba de caboclo. Logo após o leilão volta este tipo de folguedo e o ritual do candomblé católico, na parte preponderantemente medicínica, concretamente se inicia.

A partir desse momento descem os caboclos, mas não de forma simultânea para os participantes da roda. Aqueles que recebem a incorporação, contudo, fazem a saudação tocando o chão com a testa, numa aparente ritualização muçulmana, embora dados encrustado na memória, sobre esta gestualia, não tenham sido confirmados nos depoimentos dos informantes.

 

Os sistemas de valores que permeiam a presença afro-brasileira em Feira de Santana preenchem um espectro amplo e lequeado. Vão desde a moral católica ortodoxa, oriunda do catolicismo popular e que marca, embora dentro de um quadro de oscilação comportamental, o candomblé católico e o povoá, até o anarquismo umbandista, que conseguimos ver nas casas daqueles zeladores mais influnciados pelos cultos do Sul do país, notadamente São Paulo, e, em menor escala, o Rio de Janeiro.

As normas de conduta frente ao sagrado são traçadas, embora não rigidamente, pelas casas e, grosso modo, seguidas pelos adeptos. Geralmente estas normas não ultrapassam as relações interpessoais dos membros da ordem, presentes nas liminaridades da casa e da rua de que nos fala DaMata (1985). Estas normas, traçadas dentro de casa, se tornam mais rígidas, em grande número de casos, quanto maior for a proximidade – comportamental e doutrinária – do terreiro com o catolicismo. Afastando-se, inclusive, pela necessidade de construção da excludência de que já falamos, do bias e ethos católico, notamos, mais nitidamente, a não interferência da roça com os seus adeptos onde, pensando ainda com DaMata, a casa e a rua fronteirizam-se mais claramente.

Para quem entrevistou um número acentuado, talvez mesmo suficiente, de zeladores-de-santo, procurando, propositadamente, a aleatoriedade, baseando-se em bairros diferentes e afastados um do outro, como fidelidade mais científica de coleta de dados, notamos, além da necessidade de legitimação pela exclusividade, algumas formas como esta construção acontecem. Os zeladores dos Candomblés católicos, por exemplo, dividem o nós e os outros colocando Jesus Cristo do seu lado e a seu serviço e o cão do lado e a serviço das casas de orixás, com todo o maniqueísmo que esta atitude requer. Já aqueles que intitulam a sua casa de candomblé selvagem, como é o caso de Bel de Deus, do Centro Ilê Arrochichê Odoré – Império dos Orixás, podem ter Lúcifer como caboclo central. Isto mesmo: o condutor da luz, segundo Bel, o Exu preferido por Oxalá. Este é o processo de remissão de Lúcifer, fenômeno já, também, pesquisado – embora embrionariamente – por nós. introduzimos este ensaio nesta tese já que este fenômeno – comum na Umbanda paulista – já ocorre também em Feira de Santana.

 

2.      O Povoá

 

Essa encantaria foi colhida no Centro São Jorge Caboclo, Rua Comandante Hermínio, 17- Bairro do Caseb – Chácara São Jorge, propriedade do Sr. Miguel de Gentil, numa festa de Senhora Santana, no dia 26 de julho, data magna religiosa da cidade. Dia da sua padroeira.

O Sr Miguel considera-se espírita brasileiro, já que escolheu trabalhar apenas com índios encantados. Acredita na existência dos Orixás, que seriam índios africanos e que os brasileiros que se identificam mais com a África, fazem a escolha de com eles trabalhar.

O povoá não nega os encantados das outras religiões, apenas vê os seus adeptos como aqueles que optaram por operarem com uma parte do invisível. Não existi, assim afirma, religião falsa ou verdadeira, apenas a escolha de uma área do sagrado. A deles recai sobre os caboclos, por serem mais alegres e exigirem obrigações mais fáceis de serem cumpridas. A hierarquia também é menos centralizadora.

Entre os seus adeptos encontram-se rezadeiras, benzedeiras e outras categorias ocupacionais ligadas ao catolicismo popular. De certa forma, vêem-se como uma extensão dessa religiosidade. São devotos de santos católicos e ligam-se a caboclos que sejam devotos também dos seus santos. Explico: um fiel, devoto de São Jorge, tende a se fazer acompanhar por gentil ou tupinambá, que são caboclos também devotos daquele santo. O curioso é que não é necessário que um determinado caboclo tenha sempre o mesmo santo de devoção, ou seja, o tupinambá de um membro, por exemplo, pode ser devoto de São Jorge. O mesmo caboclo, acompanhando outro fiel, pode ser devoto de Santo Antônio. A explicação é que só existe um São Jorge ou um Santo Antônio, mas não um só tupinambá.

Esmiuçando mais: os caboclos (basicamente índios encantados) são espíritos dos membros de uma tribo. Assim, tupinambá, presente em um ritual, é um índio da tribo tupinambá que ali se manifesta. O mesmo processo acontece com todos os outros encantados. Essa quebra da individualidade mágica, até certo ponto consolida a personalidade histórica e estórica dos santos da igreja católica oficial. Essa relação heterogênea e assimétrica acompanha, a nosso ver, a leitura feita pelo homem comum brasileiro, da cultura que o envolve e que historicamente herdou. É uma forma de administrar como, na sua sociedade, o imaginário magicamente se manifesta e o sagrado socialmente atua.

No candomblé católico os santos são os guias dos orixás. No povoá os santos são os guias dos caboclos. Os santos sempre são guias. Os devotos escolhem a que seguidores espirituais devem se vincular. Esses pensamentos, coincidem com as afirmações comuns que os membros das confrarias brasileiras fazem dos santos e encantados.

Todas essas observações parecem constatar que a nação brasileira, em sincretismos, continuados herdou, não apenas santos católicos, orixás africanos e encantados índios brasileiros mas, também, tanto os parâmetros individualizados dos primeiros como as noções de seres coletivizados dos segundos e terceiros. Embora essa cosmovisão mágica não abarque todo o imaginário das encantarias brasileiras tem, nos sítios onde elas vicejam, uma visível conotação majoritária.

Os adeptos do povoá não se dividem em mestres e aprendizes, como no comum das encantarias, mas católicos das mais variadas tendências e aceitações (inclusive afro-brasileiras) que trabalham e brincam com caboclos. Trabalhar significa pedir ajuda ao caboclo para que o seu santo de devoção ou milagreiro atenda aos seus pedidos, brincar significa festejar o seu encantado no sambas de caboclos.

Como não se consideram uma confraria à parte ou ao lado da religião católica, não vêem a necessidade de não praticarem o ritual durante a quaresma, já que ele não fere, segundo os fiéis, os preceitos da igreja. Esses rituais acoplam-se as novenas católicas nos seus dias festivos. O que difere é que, além dos indivíduos que rezam, também o cantar das ladainhas fica a cargo dos caboclos incorporados no toque da viola.

Com exceção do pandeiro não identificamos, no povoá, nenhum outro instrumento de percursão que acompanhasse o ritual. A tônica encontra-se nos instrumentos de corda, enfeitados para as funções de reizado, nas palmas que comumente acompanham os cânticos e nas vozes que os entoam.

Os chapéus de palha enfeitados, as roupas coloridas, os instrumentos cheiros de fitas e as bandeirolas na casa lembram, a todo momento, um ambiente de função de terno de reis, embora os participantes não sejam, necessariamente, membros de algum desses folguedos.

O povoá não possui sacramentos próprios. Batizados e casamentos são os da igreja católica. Batizar o caboclo significa, apenas, acolher o encantado em uma festa/função. Por força desse comportamento é que o julgamos uma encataria situada em um espaço mágico-religioso liminar, isto é, uma religiosidade instalada entre a religião e o folguedo, situação perfeitamente compreensível, já que manifestada em uma sociedade relacional (DAMATTA: 1986), construída por um povo novo (RIBEIRO: 1975).

 

 

Referências

 

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RIBEIRO, Darcy. Teoria do Brasil. 2. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

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