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O Processo de Cura no Movimento da Renovação Carismática Católica

Leila C. Santos

O interesse pelo tema surgiu da freqüente discussão sobre as técnicas de poder curativo presentes atualmente em  diversas áreas do conhecimento humano. Este assunto tem atraído muitos estudiosos e leigos na busca da compreensão dos processos curativos, sejam de ordem médica, paramédica ou de outras categorias.

Como os processos de cura, suas técnicas e manifestações são pertencentes a um conteúdo muito amplo e complexo, ocorreu-me estudar como se dão estes processos no Movimento da Renovação Carismática Católica.

Para deixá-los um pouco mais esclarecidos sobre o que é o movimento da RCC, devo, ainda que brevemente, dizer que se trata de um movimento que surgiu em meados do século XX nos Estados Unidos, enfocando o reavivamento no Espírito Santo. Esse movimento foi o marco da volta da experiência pentecostal. Desde então, este movimento vem ganhando cada vez mais adeptos e conquistando um espaço cada vez mais amplo na mídia. (Como exemplos claros desse fenômeno, temos as missas carismáticas do Padre Marcelo em São Paulo e as missas do Padre Zeca no Rio de Janeiro).

O movimento carismático é marcado por uma grande participação de seus adeptos, que cantam, dançam, louvam, oram em voz alta...E em meio a todo esse frenesi, ocupa lugar de destaque as manifestações de cura em nome do Espírito Santo.

Eis aqui o ponto convergente entre as manifestações de cura paramédica, discutida em diferentes campos do conhecimento, e a manifestação de cura por um meio divino. Notando haver tal convergência, o objetivo proposto na elaboração do projeto tem como perspectivas: identificar a quem a cura é atribuída; se há uma crença, como ela se classifica; explicitar os fenômenos psíquicos subjacentes; esclarecer os conceitos envolvidos (medo, culpa, narcisismo, afeto, desejo, censura...).

Podemos perceber que quanto mais buscamos entender, mais este campo se amplia ao nosso horizonte. Tentando, então, estreitar as possibilidades de estudo, limitar-me-ei a um trabalho de campo a ser realizado em uma das paróquias da cidade de Assis, onde se concentram os chamados grupos de oração com algumas sessões de cura.

Para observar e compreender esse processo de cura paramédica ocorrente no movimento da RCC, tenho feito algumas leituras referentes ao assunto, além de posteriormente, realizar observações das manifestações de cura ocorrentes nos grupos de oração e elaborar entrevistas e diálogos com membros dirigentes e participantes destes mesmos grupos.

Como esta exposição trata de um projeto de iniciação científica ainda em andamento, não existem resultados e dados passíveis de discussão, então, seria conveniente ter vossa atenção para aquilo que os escritos teóricos possibilitam-nos discutir me torno do tema proposto.

John Bowen ,em “Religion in Practice”, trata da possibilidade de nos aprofundarmos no uso dos nossos poderes, quando aplicados à magia ou à religião. Ele define religião como a busca de uma divindade, de um ser transcendental, e atribui à magia a manipulação de objetos e declarações de feitiços com um objetivo prático.

Em seu discurso, enfoca a religião em toda a sua utilização de instrumentos (orações, objetos e estados mentais...) para a obtenção de um fim prático, no nosso caso, a cura.

O processo de cura é analisado em diferentes grupos sociais, desde os povos primitivos. Em tais análises, é freqüente o aparecimento da crença. Cabe salientar que em seus estudos é cada vez mais notável a crença na imposição de mãos para curar aqueles que se encontram na condição de enfermos e, há também, a crença na cura de si próprio. Esse tipo de crença tem atingido multidões no mundo inteiro, inclusive vem suscitando o interesse de estudiosos preocupados com o fenômeno da fé.

Claude Lévi-Strauss também faz uma análise sobre a eficácia de certas crenças em seu livro “Antropologia Estrutural”.

Naquilo que concerne ao nosso interesse, Lévi-Strauss aborda elementos indispensáveis para a ocorrência de certas práticas mágicas. A principal é a crença do feiticeiro em suas técnicas e poderes de cura, a crença do paciente no feiticeiro que tem o poder de curá-lo e a crença de todo um público nas técnicas e no poder do feiticeiro. Pela existência da crença, o autor acredita ser importante o tipo de cultura introjetada pelo grupo. Ele defende a idéia de que a crença em qualquer situação é o alicerce para qualquer tipo de construção. Conhecendo-se o objeto de crença de um povo ou de determinado grupo social, é possível manipular sua fé, dando à “platéia” um espetáculo em que seu credo é personificado e torna-se digno de aplauso. Sendo assim, o controle da situação pode se apresentar em qualquer  condição.

Lévi-Strauss cita um caso de uma parturiente que, manifestando dificuldades de parto, necessita do auxílio de um xamã para afastar Muu de seu útero e canal vaginal, possibilitando a passagem do bebê à vida. Muu é responsável pelo feto e capturou a alma da paciente dificultando seu trabalho de parto. Somente uma canção xamanística poderia auxiliar a parturiente. O xamã começa, então, o encantamento e, sem tocar na paciente, liberta sua alma de Muu e ela consegue conceber a criança.

Esse processo de cura se refere a uma consciência coletiva, em que se estabelece a eficácia de tal processo recorrendo-se aos costumes, culturas e crenças nos quais um povo se encontra estruturado.

Paulo César Alves em seu artigo “Experiencing Illness: theoretical considerations” discorre sobre a experiência da enfermidade embasada no caráter de enfermidade instituído num plano sócio-cultural. Ele acredita que a enfermidade [e determinada e entendida de acordo com padronizações socialmente impostas, ou seja, só se experiencia uma doença quando se tem  o conhecimento dela, ou ainda, não temos doenças que não conhecemos, e esse conhecimento pode se dar  pelo fato de acreditarmos ou não em sua existência. Mais uma vez o conceito de crença nos é apresentado (agora de uma forma subjetiva).

Alves acredita na bipolaridade da questão da enfermidade: de um lado se encontram os fatores que levam à compreensão da enfermidade enquanto presa à experiência (representação da doença associada à forma adequada de tratamento), e de outro , acredita-se  que a enfermidade não se constitui apenas num processo subjetivo, mas depende do sentido atribuído a ela e , este sentido se encontra numa cadeia de significantes legitimado pelos membros de uma sociedade.

Em suma, a atribuição de um significado à doença é definido socioculturalmente  e a utilização desse significado é que designa a experiência de enfermidade de um indivíduo.

Partindo para uma outra perspectiva, temos o apoio de Mircea Eliade que, em “Mito e Realidade”, nos mostra um panorama sobre origem dos mitos e sua influência na vida de um povo, desde as sociedades arcaicas.

Eliade define mito como o retrato de uma história sagrada que relata um acontecimento do Tempo Primordial. Seus personagens são Entes Sobrenaturais que, através de seus feitos grandiosos, influenciam toda uma conduta humana e tornam o homem tal qual ele é.

A relação dos mitos com o processo de cura se encontra na posse de poderes mágicos que permitem dominar, reproduzir, curar... “Na religião ocorre a rememoração das obras de Entes Sobrenaturais. Reviver um mito implica em evocar a presença desses Entes e contemporaneizar-se com eles”. Isso explica as cenas encontradas no Movimento da Renovação Carismática Católica: os participantes evocam a presença de um mito Salvador, uma entidade divina da qual participam com danças, cantos, orações, pedidos, curas, bênçãos... É este ser sobrenatural quem realiza todas as maravilhas tendo por instrumento um servo no plano terrestre.

Na cerimônia de cura, o doente é projetado para fora do tempo profano e introduzido no Tempo Primordial. Isso equivale a dizer que o paciente sai do plano de sua consciência  e se projeta no campo inconsciente, em que se encontram enraizadas todas as crenças e manifestações míticas, desde as eras mais arcaicas, e são estes conteúdos que lhe  possibilitarão alcançar a cura.

Mary Douglas nos serve de aparato ao abordar as questões de poder existentes em inúmeras instituições e grupos sociais, em  seu livro “Pureza e Perigo”.

 As relações de domínio estão presentes nas sociedades desde os povos primitivos até os dias atuais, e é possível encontrar esta manifestação em “lugares e tempos sagrados”, como ocorre nos sistemas religiosos.

A idéia de falar dos sistemas religiosos surge dos acontecimentos atuais que retratam a imposição de  poder adquirido pelas crenças que, como citado em Lévi-Strauss, pode tornar-se uma ameaça e um meio de coação de um indivíduo para com seu próximo.

A crença envolve um jogo duplo de inarticulações: de um lado há a aventura pelas regiões desordenadas da mente, e por outro, uma aventura para além dos limites da sociedade. O indivíduo que tem o acesso à essas regiões traz consigo um poder inacessível aos  demais, assim ele tem o controle de si e de seu grupo, pode governar outras mentes pela experiência do “ir além”.

Aqueles que não se encontram de posse de tais poderes, buscam auxílio em  outras instituições que prometem oferecê-los a perfeição, a santidade, a ordem, a cura, a limpeza...

A energia para comandar e poderes especiais de cura são dados àquele que podem abandonar o controle racional por algum tempo, e ao retornarem ao seu juízo e à sociedade humana, se encontram detentores de um “poder oculto”. Esses poderes espirituais que a ação humana pode desencadear são divididos em duas classes: interna e externa. A primeira reside na psique do agente (dons de visão, cura, profecias...), a segunda refere-se a símbolos externos sobre os quais o agente precisa trabalhar conscienciosamente (conjuros, bênçãos, invocações...).

A posse de tais poderes também é visível no movimento da RCC, onde aqueles que se encontram no “topo da hierarquia divina”, sentem-se no direito de direcionar e controlar a vida e a fé daqueles que, por não gozarem de tal posse, entregam sua existência a uma força supostamente superior, capaz de ofertar-lhes conforto, saúde e a felicidade de que precisam. Resta-nos saber a que preço!

No clássico “Símbolo da Transformação na Missa”, Jung defende a tese de que a missa possui um caráter muito importante por ser um dos ritos que participa do desenvolvimento do indivíduo durante um processo de individuação que busca atingir o self.

Partindo deste pressuposto, Jung narra a participação do sacerdote e da assembléia no rito da transformação, em virtude de uma unidade mística. A unidade mística pressupõe a existência de um Deus que oferece a si mesmo em sacrifício nas substância consagradas (vinho, hóstia, água), na pessoa do sacerdote e na comunidade. Na  missa ocorre a atualização desta unidade mística: o homem se faz instrumento voluntário enquanto se encontra dominado pelo mistério da transubstanciação, enquanto acredita nele. É essa crença que faz ocorrer o milagre do rito.

A identificação do indivíduo com a figura de Cristo, de uma divindade, leva-o a um ato sacrificial que supõe a renúncia de si, um auto-exame e a confissão dos pecados. Esses fatores implicam no autoconhecimento que sugere que a consciência está contida na totalidade do indivíduo, o que permite a ele a evolução para uma personalidade mais ampla, e o desenvolvimento das potencialidades desta personalidade permitem-no alcançar o self, a integridade psíquica.

O self atingido representa sua totalidade, o que abrange conteúdos conscientes e inconscientes, buscando a associação entre eles. Na missa, identificando-se com a perfeição (inconsciente coletivo representado pela figura de Cristo), o homem clama por ela submetendo-se às suas pretensões.

Outro aspecto não menos relevante também abordado por Jung, é concernente ao poder da palavra, que se encontra de forma visível no movimento da RCC. Para Jung “as palavras substituem coisas, são palavras de força. Surge simplesmente um mágico da palavra, pelo qual nos deixamos impressionar demais, porque aquilo que nos é estranho é tomado como algo particularmente profundo e importante”.

A ruptura de contato com o inconsciente e a submissão à tirania da palavra representam desvantagem à medida que a consciência torna-se cada vez mais presa à atividade, e isto gera a decomposição da visão de mundo em infinitas particularidades, resultando na perda do sentido de unidade. O modo pelo qual o inconsciente irrompe a consciência nos faz lembrar dos fenômenos políticos-sociais  em que a consciência e a personalidade individual se dissociam, resultando nos fenômenos de massa. Esta é outra característica do movimento: pelo domínio da palavra, os fiéis são levados a se encontrarem na pessoa de Cristo e pedir através do Espírito Santo, que este possa curá-los, libertá-los e render-lhes bênçãos. É o Espírito Santo quem pode ofertá-los estas maravilhas? O que caracteriza esta crença?

Nos clássicos psicanalíticos “O Futuro de Uma Ilusão” e “O Mal-Estar na Civilização”, Freud discute o surgimento da civilização como um caráter de repressão. A civilização é definida como algo que nos foi imposto com o objetivo de reordenar as relações humanas. Tal reordenação surge da internalização das normas que destroem a liberdade. Seu desenvolvimento impõe restrições e exige que ninguém fuja às regras. Aquilo que chamamos de “nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça, e seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”, onde apenas o princípio de prazer regia a vida.

É a civilização que descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossa vida da de nossos antepassados e ela também serve para proteger o homem contra a natureza e ajustá-lo aos seus relacionamentos mútuos, de acordo com o surgimento das normas.

Todo esse afunilamento dos prazeres do homem determinado pelas regras sociais, gera um sentimento de hostilidade do indivíduo para com a civilização. “É impossível desprezar o ponto até o qual a civilização é construída sobre uma renúncia do instinto, o quanto ela pressupõe exatamente a não satisfação de instintos poderosos e , essa frustração  cultural domina a grande parte dos relacionamentos sociais entre os seres humanos”, causando danos aos indivíduos, pois não se priva de um instinto impunemente. Toda civilização funda-se sobre a coerção e a renúncia ao instinto.

No mais alto nível das civilizações se encontram, entre outros sistemas, as religiões, como uma das maiores realizações do espírito humano.

A formação da religião se relaciona com o desamparo, sofrido pelo adulto, já vivido na infância em relação às figuras parentais, ou seja, a religião é a manifestação do complexo paterno e do desamparo, em que o indivíduo sente a necessidade de proteção do pai.

Transportando os motivos manifestos da Psicanálise para a Religião, podemos dizer que: a mãe é a fonte de satisfação da criança, é seu primeiro objeto amoroso. É nesta figura que a criança encontra a proteção contra todos os perigos que a ameaçam no mundo externo.

Nessa função, a mãe logo é substituída pela figura mais forte do pai, que permanece nesta posição pelo resto da infância. No entanto, a atitude da criança em relação ao pai é de caráter ambivalente: ora o pai constitui um perigo peculiar para a criança por causa de seu relacionamento anterior com sua mãe, ora a criança o anseia pela proteção que este oferece e , então, o admira. Este caráter de ambivalência na atitude para com o pai está profundamente impresso nas religiões.

Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre e que nunca poderá passar sem a proteção contra os perigos, cria para si os deuses a quem teme, a quem procura propiciar e a quem confia sua própria proteção. Dessa forma, o anseio por um pai constitui sua necessidade de proteção contra as conseqüências de sua impotência. É um mecanismo de defesa contra o desamparo infantil que caracteriza a formação das atitudes religiosas.

As idéias religiosas são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos. A necessidade infinita de proteção fez com que o homem buscasse um pai mais poderoso, uma Providência Divina que o assegurasse a privação dos perigos, o estabelecimento de uma ordem moral e o prolongamento da existência terrena numa vida futura.

O sistema de doutrinas e promessas explicam os enigmas deste mundo “com uma perfeição invejável e garantem ao indivíduo uma Providência Divina que cuidará e velará por sua vida numa existência futura, sem riscos de frustração”. O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido. “Tudo é tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que para qualquer pessoas que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão de vida”.

Pensa-se que só temos sofrimentos nesta vida e que somente a religião é capaz de apaziguá-los, mas tentar solucionar os propósitos da vida com o auxílio da religião, não constitui a chave para todas as questões. O que decide os propósitos da vida é, simplesmente, o princípio de prazer. Esse princípio domina todo o funcionamento do aparelho psíquico desde o início da vida humana.

O princípio de prazer considera a realidade como única inimiga e fonte de todo sofrimento com o qual é impossível viver se quisermos, de algum modo, sermos felizes. Cada um de nós se comporta de um determinado modo, “corrigindo” no mundo algum aspecto que não nos é suportável. A partir disso, elaboramos um desejo e introduzimos esse delírio na realidade. Esse modelamento delirante da realidade é efetuado por um considerável número de pessoas, entre as quais se encontram os adeptos dos delírios de massa de caráter religioso.

  O sentimento religioso constitui, então, uma repetição da situação edipiana. Não há menção de argumentos em justificação de Deus, não nos é dito quais foram os sinais infalíveis pelos quais Deus provou sua existência àqueles que dela duvidaram. Assim, o conflito edípico se desdobrou sob uma forma de psicose alucinatória: ouvem-se vozes, sentem-se salvos, tocados, curados, repletos da presença divina...

Qualquer semelhança com o Movimento da Renovação Carismática Católica terá sido mera coincidência(?).

Após todos os pressupostos teóricos apresentados, fica-se com a impressão de que nenhum de  nossos questionamentos encontrou respostas sólida. O que há em comum em todas as vertentes é o aparecimento da crença, condição sine qua non à eficácia das diversas manifestações rituais religiosas. Várias vertentes explicam seu surgimento como sendo de caráter mitológico, antropológico, psicológico, estruturalista... mas nenhuma caracteriza o que está subjacente à crença. E  é esta a questão que vos deixo como reflexão.