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A Consolaçam, Ferrara, 1553 como fonte para o estudo do sefardismo: entre a tradição e a modernidade

Marco A. N. Soares

FCLAs-UNESP

Escrito por Samuel Usque e editada em Ferrara em 1553, nas oficinas de A. aben Usque, a Consolaçam as Tribulaçoens de Israel é uma extensa alegoria pastoril, composta em português por um provável ex-marrano exilado em Ferrara, território da família d’Este.

Essa obra, que foi dirigida aos senhores do desterro de Portugal, sumula as perseguições sofridas pelos judeus desde a destruição do Templo por Tito até aquele em que ambos, autor e editor, foram vítimas: as expulsões ibéricas nos últimos decênios do século XV.

O livro em questão, por suas características formais enseja um paradoxo: concebida como uma obra fruto do impacto entre renascimento e sefardismo expressa-se sob a litera antiqua, os caracteres góticos; dialoga com teses platônicas (ou pretensamente platônicas) e humanistas, mas suas justificações são sempre fundadas na ortodoxia sefardita; e para expor seus diálogos segue o modelo greco-romano, alegórico, mas com um écran histórico.

Dessa forma, o estudo da Consolaçam pode revelar-nos a visão-de-mundo dos anusim portugueses assentados em Ferrara, que reivindicaram sua fé judaica e sua origem portuguesa, para colocarem-se como um dos instrumentos de modernização da Europa no século XVI.